Frase de Fabrício Ferreira
Sob o brilho das luzes neon e a escuridão do céu noturno, o mundo se revelava, mas a imagem que meus olhos captavam era distinta daquela vista pelas outras pessoas; jamais me encaixei, desde o primeiro choro na infância difícil — e ali, no quarto escuro do começo, meu futuro já estava traçado: o diferente, o sonhador com uma visão única. Me distanciei da fonte comum, onde todos saciavam a sede com as mesmas paixões banais, os mesmos desejos de um jardim perfeito e uma vida confortável com as contas em dia; não conseguia beber daquela fonte contaminada pela tradição, daquela água estagnada da mesmice. Meu coração, essa engrenagem solitária e incansável, despertava ao som de um chamado indomável, uma gaita de foles à margem do caminho, um blues rouco e melancólico da noite, uma revelação intensa que a escola jamais apresentou e que meus pais nunca sequer mencionaram. Que lancem as críticas, os diagnósticos, os conselhos cheios de boas intenções: Eu amei, sim, eu amei profundamente o mundo e a beleza de sua desordem, mas cada pulsação, cada alegria, cada desilusão, cada traço de afeto — eu amei em solidão, dentro da caixa de ressonância do meu crânio, na imensidão deserta do meu quarto, completamente e de forma extraordinária sozinho, sem ninguém além do teto empoeirado e do eco do meu corpo ardente.
No pensador.ai desde