Frase de Cayo Freire
Redemoinho O homem nasce menino na planície verde e monótona, onde o tempo mastiga devagar os ossos das horas. Tudo é pacato. Tudo é árido. O horizonte não traz ameaças. Então chega o dia em que ele se confronta com o furacão. O tufão do Atlântico e do Pacífico, carregado de cores, ruídos, promessas, vidas demais até para mil existências. O giro tempestuoso desloca o mundo. Arranca o que era chão. Semeia o que já nasce morto. Nada permanece. As coisas não amadurecem, apenas surgem e se dissolvem sem parto e sem luto. O homem-menino abre os braços. Quer o clarão, quer o excesso, quer o impossível. E o redemoinho o aceita. Engole seus sonhos frágeis, mistura artefatos, rostos, desejos em uma nuvem de poeira disforme. Agora é homem. O menino ficou para trás como um retrato esquecido na estante, como letras gravadas na velha árvore. Está no olho do furacão. Silêncio dentro. Caos ao redor. Já não acompanha o giro. A mudança o ultrapassa como um trem que não para em nenhuma estação. Olha ao longe as pradarias de onde veio. Vinhas imaginárias. Um tempo sem gritos. Um tempo sem pressa. Mas descer já não é gesto. É amputação. Ele tornou-se o próprio vento que o desfaz. A cada segundo um pouco menos sólido, um pouco mais vapor. Ao homem sempre restará esse vício antigo: abandonar o simples e, tarde demais, implorar pela simplicidade.
No pensador.ai desde