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Frase de Cayo Freire

Deriva Eu não me sinto em casa, pois fui eu quem se lançou para fora dela. Hoje, as paredes sabem o meu nome, mas não me reconhecem. Eu já não me sinto em mim. Habito este corpo como quem ocupa um traje espacial em missão sem retorno, ou como quem vive em um quarto barato demais para reclamar e caro demais para abandonar. Há dias em que caminho pela própria consciência como um inquilino com o aluguel atrasado, evitando fazer barulho para não ser expulso. Abro as gavetas da memória e encontro apenas recibos de versões antigas de mim. Todas vencidas. Não é que o mundo tenha me posto para fora. Não. Fui eu quem saiu aos poucos, deixando as luzes acesas para fingir que ainda morava aqui. Agora está tudo silencioso: só a expansão infinita e a própria respiração dentro do capacete. Não há grito; o som não se propaga no vácuo. Foi um afastamento quase imperceptível, um desencaixe mínimo entre rota e propósito. Resta o eco de alguém que já fui e que, se me encontrasse na rua, talvez atravessasse para o outro lado.

Cayo Freire

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Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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Redemoinho O homem nasce menino na planície verde e monótona,
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Redemoinho O homem nasce menino na planície verde e monótona, onde o tempo mastiga devagar os ossos das horas. Tudo é pacato. Tudo é árido. O horizonte não traz ameaças. Então chega o dia em que ele se confronta com o furacão. O tufão do Atlântico e do Pacífico, carregado de cores, ruídos, promessas, vidas demais até para mil existências. O giro tempestuoso desloca o mundo. Arranca o que era chão. Semeia o que já nasce morto. Nada permanece. As coisas não amadurecem, apenas surgem e se dissolvem sem parto e sem luto. O homem-menino abre os braços. Quer o clarão, quer o excesso, quer o impossível. E o redemoinho o aceita. Engole seus sonhos frágeis, mistura artefatos, rostos, desejos em uma nuvem de poeira disforme. Agora é homem. O menino ficou para trás como um retrato esquecido na estante, como letras gravadas na velha árvore. Está no olho do furacão. Silêncio dentro. Caos ao redor. Já não acompanha o giro. A mudança o ultrapassa como um trem que não para em nenhuma estação. Olha ao longe as pradarias de onde veio. Vinhas imaginárias. Um tempo sem gritos. Um tempo sem pressa. Mas descer já não é gesto. É amputação. Ele tornou-se o próprio vento que o desfaz. A cada segundo um pouco menos sólido, um pouco mais vapor. Ao homem sempre restará esse vício antigo: abandonar o simples e, tarde demais, implorar pela simplicidade.