Frase de Michele Canário
À Flor da Alma Às vezes eu queria ser perfeita. Não por vaidade, mas pra ser mais sábia pra entender e reagir ao mundo com mais clareza, pra reagir com serenidade sem me deixar abalar tanto quando a vida me fere com palavras duras e o coração sangra em silêncio. Queria ser elevada o bastante pra não me abater com a maldade alheia, pra não acumular mágoas como pedras nos bolsos da alma. Mas o espelho não mente. Sou falha demais. Ciumenta demais. Desastrada demais. Tola demais. O mundo desaba e eu tropeço às vezes o raio cai, sim, no mesmo lugar. Mesmo assim, eu agradeço. Peço perdão a Deus, tento me redimir das culpas que me seguem como sombras. Vivo atenta aos passos, pra não gerar mais erros e carmas nas próximas vidas. Porque há arrependimentos que não se desfazem, palavras que ficam presas no tempo, manchando o que fomos, sem chance de apagar. E quando o peso aperta, eu sinto demais e escrevo. Escrevo pra libertar meus bichos os ferozes e os mansinhos. Escrevendo, eu voo. Toco o céu com as pontas dos dedos, descubro o meu avesso, o eu oculto que mora trancado, protegido por senhas que ninguém sabe decifrar. Não busco quantidade, busco verdade. Escrevendo, converso comigo, me ouço e respondo o que o mundo não pergunta. Me perco em sílabas, exagero nas reticências, fugindo dos pontos finais, porque nunca paro de imaginar, de me corrigir, de me reinventar. Quando escrevo, espanto a melancolia. É minha forma de rezar. De traduzir o que sinto, o que me rasga e o que me cura. Só escrevendo digo o que grita no meu olhar, que ainda sei amar e mereço, cuidado, amor. Ando à flor da pele mas fraca não sou. Sou teimosa. Sou guerra e paz, sou alma antiga. E, mesmo myitas vezes cansada, ainda tenho esperanças e sonhos. Ainda acredito. Ainda escrevo..
No pensador.ai desde