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Frase de Ademir Esteves

⁠O menino tinha uma mãe de papel. Foi seu primeiro desenho no orfanato. Ela tinha cabelos longos, num rosto com três pontinhos e quatro traços finos como corpo. Um triângulo a vestia do pescoço ao meio das pernas E ela pisava, descalça, numa linha inclinada. Quando conseguiu utilizar a tesoura, ah! esse menino... cortou milimetricamente seu desenho e o colocava ao lado da cama à noite e no bolso durante o dia. Tomava tanto cuidado para a mãe não amassar ou ser dobrada. Conversava com ela e a apresentava a todos que lhe perguntavam sobre o nome da mãe "Oras, respondia ele, o nome dela é Mãe" Tão verdadeiro lhe era, que jamais sofreu contradição. Todos acreditavam que aquela mãe existia e não o consideravam louco. O menino cresceu e era hora de enfrentar o mundo. Trabalhava como estagiário em direito e faltava um ano pra formatura esperada. "Vou advogar para os órfãos" Alguns achavam aquela fala estranha e outros não sabiam bem o que ele queria dizer. Uma noite, conversando com a Mãe e tomando um chá de camomila, estagnou olhando para ela. Depois de um tempo, refletiu: "Mãe, você está magra demais, sem cor, tudo é preto e branco!" E lhe coloriu a saia de lilás. Como estava cansado, dormiu debruçado sobre o desenho. Ao despertar, viu que havia derrubado o copo de chá sobre a Mãe. Nada pode salvar o desenho: borrado, manchado, se esvaindo em pedacinhos. Ele tinha amado sua mãe a vida inteira em preto e branco, mas quando deu-lhe cor, conheceu a razão. Não era mais menino. E o que poderia ter sido lindo, tornou-se desconhecido. Quando lhe perguntam sobre a Mãe sempre responde: "Minha mãe foi camomila enfeitada de lilás. São misturas tristes e feias e não tocam meu coração." E vai embora depressa. Já distante aperta um chumaço de papel embolorado no bolso e olha pro céu. Só então, sorri!

Ademir Esteves

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Pensador.com

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