Frase de André Luiz Zanata
Depois do Desligamento Trabalhei onde tudo passava e nada ficava. Caixas subiam mais alto que a memória, nomes pesavam mais que o corpo, e eu seguia porque seguir era o combinado. Corri atrás do que me levava, mas o caminhão não freia para quem chama pelo próprio nome. Um fio me segurou pelo costume. O choque não queria me matar, queria que eu continuasse ligado. Uma criança perguntou o que só o medo pergunta: — você ainda está vivo? Saí. Com a mão que sobrou. Caí onde a imagem nasce, madeira crua, fachada antes da fachada. Dói menos quando não é verniz. Teias tentaram me convencer, baratas me ensinaram a ficar. Um amigo não explicou nada, só puxou o que me prendia. No chão, alimento. Alguém pegou. O mundo seguiu sem minha supervisão. Larguei o que não era meu, inclusive a pressa, inclusive a dívida invisível. Fiquei com as marcas, porque elas sabem onde parar. E entendi, tarde e em paz: não é cair que machuca, é insistir em segurar o que já partiu.
No pensador.ai desde