Frase de Naty Parreiras
desORIENTE CONTO DE VIDRO. Depois de várias tentativas frustradas, na emergência de uma respeitada clínica carioca, uma médica de sobrenome Tagata (sim, oriental), dá o resultado de uma tomografia computadorizada e finalmente um diagnóstico para uma paciente um tanto atônita e desconcertada: - Duas costelas fraturadas e você me diz que não houve trauma... - Doutora... Não houve. Eu estava em um show, fui ao toillette, senti uma fisgada e a dor não parou mais. - Nenhum esbarrão, nenhum beberrão folgado te puxando pela cintura ou pelo menos uma série mais puxada de malhação? - Não, não... Passei a noite inteira com um grupo de amigos e todos são testemunha... Até sentada eu fiquei! Só pode ser obra de outro tipo de energia... - Olha, vejo casos assim todos os dias... Esteja certa de que algo aconteceu e foi de grande impacto no seu corpo. - Como isso poderia acontecer sem que eu me lembrasse? Duas costelas? Um hematoma daqueles? Impossível! - Bom, eu sou médica, meu norte é a ciência. Pra mim, você certamente sofreu alguma tensão grave no local... - O que eu sei é que quando cheguei em casa me contorcendo de dor, fui vestir algo mais leve e me deparei com a tal mancha... Olha aqui ó... Fiquei tão chocada que fotografei com o celular... (Nesse instante a paciente exibe a foto que contém a imagem da escoriação) - Nossa... É quase uma garra... - Garra? Como assim? (a paciente franze a testa) Você acha, doutora? Não tinha pensado nisso... - Como assim? Garra te diz alguma coisa? Andou com algum bichano indócil? - Não, não... Quer dizer, quais são as chances de isso ser resultado de digamos, uma fusão explosiva? - Seja mais específica... - Coisa de uma semana antes do hematoma ser notado e... - Ser notado? Como assim? Você não disse que tem certeza de que ele não estava lá antes? - Ah, Doutora, a gente checa o decote, o bumbum, não as costelas no espelho, né? -Hum... Prossiga... ( a médica já sinaliza um riso vitorioso no canto da boca) - Então... Se isso não foi uma macumba braba, só pode ter sido uma coisa... Mas... Será? Não faz sentido... Eu teria sentido alguma dor... - Não se estivesse sob efeito de álcool ou entorpecente... O pavio da lesão pode ter sido aceso no que você chamou de "explosão", mas a coisa pode ter acabado só explodindo mesmo quando fez qualquer esforço bobo, como por exemplo... - O de agachar pra ir ao toillette! - Elementar, minha cara! Mais uma vez a ciência prevaleceu! (A paciente sorri maliciosamente com as sobrancelhas levemente erguidas. Em seguida fita a Dra. Tagata em tom de desafio. Percebendo seu ar provocativo, a médica prossegue) - Mas, você me deixou intrigada... Porque essa expressão de triunfo? - Sabe o que é, Doutora? Adoro ver provado o valor da ciência na nulidade da sua probabilidade indeterminada... Essa coisa de tentar justificar paredes de vento com vidros de janelas quebradas... - Vidros? Janelas? Vento? Desculpe, não entendo... - É elementar mesmo, estimada doutora... Quando explode dentro o que é vidro, de nada adianta a vidraça da janela estar fechada. É ciência pura, acredite. E a fissura do osso, só uma metáfora materializada.
No pensador.ai desde