Frase de Júlia Figueiredo
Comprei um par de cadeiras de praia Na sala vazia, sem propósito, caiu bem seu lugar no cenário Fiz o convite. Elas vieram, sentaram-se confortavelmente, sem cruzar as pernas, e… tomando banho de lua, no reflexo da porta de vidro, decidiram deitar ao chão. Lunáticas que são, era de se esperar. A conversa deu lugar ao silêncio que escutava a música Minha playlist "23:45" ecoava na sala cheia de vazios Elas, as cadeiras vazias, os corpos no chão, o brilho lunar invadindo a sala… Contemplamos, existimos, sem função, a sala não tinha propósito Da gente, só se esperava existir… livres, descruzadas, juntas, deitadas e enroscando as mãos em nosso cabelos Elas foram embora. Comprei uma poltrona caríssima para duas deitarem A poltrona se acostumou, e eu me acostumei com seu conforto vazio, também sem propósito Era ela para nada. Para o mesmo que as cadeiras de praia Mas para ser nada, custou muito e fiquei brava. Comprei uma luminária, para iluminar seu costume na sala. Agora existia um propósito… a luminária, clarear a poltrona a poltrona, ser iluminada Mas também era para nada Comprei uma vitrola, e era para ecoar sons na sala que já não estava vazia. E percebi que também era para nada se não houvesse nela um vinil cambaleando Comprei o vinil, e este era para alguma coisa. Era para fazer funcionar a vitrola e dar a ela propósito. E, cambaleando, percebi que também me acostumava. Comprei um vinho para encher a taça E enchendo a taça, a esvaziava em mim, que agora cheia dele, via alguma proposta Eu é que estava iluminada, mesmo sem ligar a luminária na tomada. Olhando para a sala, desci os degraus saindo de casa. Deitei na rede, e olhando para a sala cheia, percebi que não me cabia lá. Era tudo para nada. Todos nós estávamos acostumados. Tudo era para nada. Então, desistindo de ter, existi!
No pensador.ai desde