Frase de Juliana Umbelino
há coisas que não escrevi em papel. mas continuam aparecendo nas minhas mãos. • talvez seja isso que chamam de seguir em frente: continuar tocando o mundo com dedos que ainda tremem do que não foi dito. não é culpa. não é saudade. é o tipo de presença que já não tem nome mas ainda sabe o caminho até minha cama. • essa semana, encontrei seu nome no fundo de uma gaveta onde não guardo mais nada. mas ali estava ele. como se nunca tivesse saído. às vezes, as lembranças têm a audácia de se esconder nas coisas limpas. • tem palavras que não escrevi, mas o corpo aprendeu. tem hábitos que finjo que perdi, mas reaparecem nos dias em que durmo pouco e acordo cedo demais pra estar viva de verdade. • nunca fui de ter fé. mas às vezes falo contigo como quem reza pra algo que não acredita, mas precisa manter por perto. e não. não é oração. é hábito. é cansaço. é um tipo de apego que ainda late. • ninguém me avisou que aquilo que não se escreve fica procurando lugar pra sair. às vezes escorre no banho. às vezes bate na parede da garganta. às vezes se arruma inteiro pra aparecer de madrugada com cheiro de antes e a voz que eu jurei não lembrar mais. • tem dias em que acordo com a sensação de que alguém escreveu em mim. e não fui eu. como se as mãos tivessem lembrado o caminho sozinhas. como se o corpo tivesse sonhado um gesto e decidido repeti-lo em silêncio. • há coisas que eu jurei ter superado. mas continuam me usando como hospedeiro. coisas que encostam nos objetos, mexem na disposição dos móveis, ficam em pé no canto do quarto como um pensamento que ninguém convidou e não tem educação pra sair. • as palavras não saem. mas a sensação fica. e ela sabe usar minha mão pra lembrar. • ninguém vê. mas tem algo aqui dentro que escreve por mim. não escreve bonito. não escreve pra curar. escreve pra lembrar que eu ainda sinto. • o que não é escrito, às vezes cresce. às vezes pesa. às vezes te escreve de volta. sem papel. sem tinta. só a memória viva do que você tentou enterrar com palavras que nunca chegaram a nascer. • e é aí que mora o perigo. no que ficou grande demais pra continuar calado. mas educado demais pra gritar. Juliana Umbelino
No pensador.ai desde