Frase de Negreiros
CALDO DE CANA No roçado amanhecendo, Vi o sol beijar a estrada, A enxada cortando o mato, Na lida abençoada. O cheiro verde da cana, Na memória adormecida... Doce lembrança de uma infância dolorida. No engenho a roda cantava, Gemia o velho moendão, A garapa escorria farta, Feito bênção pelo chão. Cada gota era esperança, Pela família repartida... Doce lembrança de uma infância dolorida. Tinha a cana Caiana, Alta, forte e vigorosa, Ao lado da velha Pitú, Sempre doce e generosa. Cada talo era um tesouro, Na jornada tão sofrida... Doce lembrança de uma infância dolorida. O caldo de cana gelado, Com pão-doce e boa broa, Era um banquete de pobre Que a lembrança ainda entoa. Pouco havia sobre a mesa, Mas nunca faltou comida... Doce lembrança de uma infância dolorida. O melaço fervilhando Na panela de carvão, Perfumava o terreiro inteiro, Adoçando o coração. O doce vencia a dureza Da batalha já vivida... Doce lembrança de uma infância dolorida. Quando vinha o tempo da safra, Era festa no canavial, Mas depois da derrubada Recomeçava o ritual. A terra pedia de novo A semente repartida... Doce lembrança de uma infância dolorida. Na reçoca do plantio, Brota a força da raiz, A cana vence o tempo, Sem esquecer seu país. Quem conhece esse mistério Vê a vida refletida... Doce lembrança de uma infância dolorida. O suor de cada homem Era chuva sobre o chão, Misturando fé e coragem Com trabalho e oração. A colheita era pequena, Mas a honra garantida... Doce lembrança de uma infância dolorida. Hoje o engenho silencia, Muita coisa já mudou, Mas o cheiro da garapa O tempo nunca apagou. Quem provou aquele caldo Leva a alma comovida... Doce lembrança de uma infância dolorida. Que o caldo de cana ensine O valor da tradição, Da família reunida, Da coragem do sertão. Pois o doce da memória Jamais conhece partida... Doce lembrança de uma infância dolorida.
No pensador.ai desde