Pular para o conteúdo

Frase de Ricardo Maria Louro

⁠Eu o Natal e o Tejo - E hoje, aqui, só, frente ao Tejo, nesta noite de Natal, pela madrugada, encontro-me na Vida como sempre estive e nela me senti - deserdado! Triste, só e solitário. Sepultado ... Vulto desgarrado, absorto e sombrio, doente desenganado, pela esperança vagueando, escorrido de ilusão, sem mãe nem pai, filho das ervas, do pó dos mortos que morreram, da terra e da angustia cilindrada. Sem Pátria nem família, sem casa nem leito, sem colo onde me acoite ou chão onde pisar. Esta noite é mais longa do que outras. Do que todas! Porque hoje não há nada! Nada! Só eu! Só! Eu, o Tejo, a ponte e o Cristo Rei... Tudo estático, incólume, parado. Menos eu que desabei a última ilusão! Matei a família que inventei. Virei costas à infância. Sou órfão! Sou órfão! Mas quando é que o não fui?! Se calhar no ventre de minha mãe ... e só aí ... Único tempo de aconchego que tive alguma vez. Não dado por ela mas pela sábia natureza ... Haverá em toda a parte famílias reunidas! Haverá braços estendidos, corações quentes, lareiras à arder, sorrisos rasgados ... ... porque é Natal … porque é Natal! Em mim e para mim já não há nada! Nada! Só a Noite deslumbrante e o silêncio dos ausentes. Minha família reunida ... é feliz ... sem mim ... sem mim! Nunca me encaixei no seu destino! Porque o meu nunca foi o seu destino ou o deles foi o meu! Triste desencontro, o nosso ... Não sei de onde sou, não sei afinal quem sou, só sei que não sou dali, que não sou o que eles dizem! Posso não ter nada mas tenho-me a mim, e a Deus, e aos meus versos, e ao meu destino que o deles não será! Por certo! O que já é quanto me baste! Sou livre ... ao menos... E Tu,Tejo das minhas ilusões que hoje me aconchegas, leva este Natal ... afoga-o no mar! Que eu, querendo ser alguma coisa, não fui nada! Só aquilo que nunca pensei ser. Ironias e cansaços ... E já foi muito ... já fui muito! Agora não sou nada ... e já nada quero ser! Só eu! Simplesmente! Assim ... Porque nada ser (e aceita-lo) é poder e querer ser tudo! Mas serei apenas o meu sonho! Já me chega! É ser muito! Ser aqui e ser ali o que nunca irei ser é ser muito ... é ser muito! Não devia ter nascido! Era isso que sonhava! Debalde ... é tarde ... aconteceu! Viverei incumprido para sempre! Fica o sonho e a vontade - num beijo ... A Esperança que me assiste - de pé ... Eu e o Natal - à Beira Tejo ... 24-12-2014 (No jardim da casa do Conde de Monsaraz, virado ao Tejo, na Rua Vitor Cordon ao Chiado em Lisboa … numa estranha, triste mas lúcida noite de Natal ...)

Ricardo Maria Louro

No pensador.ai desde

Fonte e informações de autoria

Pensador.com

Abrir fonte original (abre em nova aba)

Outras frases de Ricardo Maria Louro

⁠CANTIGA DE ESCÁRNIO E MALDIZER: Quando as tripas te doerem Ou tiveres diarreia
Continuar lendo

⁠CANTIGA DE ESCÁRNIO E MALDIZER: Quando as tripas te doerem Ou tiveres diarreia O XANAX, é bom saberem, Faz passar, é boa ideia! Na farmácia Malagueira A Crispina ao balcão Dá XANAX p'ra cegueira A quem vem com comixão. Aos jantares de Natal Só lá vão os coitadinhos deixa estar que não faz mal Serão sempre pobrezinhos. Um XANAX, é bom saberem Faz passar a diarreia Quando as tripas te doerem Bota-a-Baixo, é boa ideia.

⁠Nome que é meu - Nada no mundo me prende perdi-me no sofrimento
Continuar lendo

⁠Nome que é meu - Nada no mundo me prende perdi-me no sofrimento e quanto dói dentro da gente não saber dar tempo ao tempo! Sou como a folha caída que se perdeu do mundo inteiro sou como a flor esquecida em manhã de nevoeiro! A tristeza que me abraça dá mais voz à minha fome sou como tudo o que passa não me chamem pelo nome! Porque esse nome sem carinho foi o destino quem mo deu deixem-me Ser pelo caminho longe desse nome que é meu!

⁠Viagem - A vida é uma viagem Um retorno sem imagem
Continuar lendo

⁠Viagem - A vida é uma viagem Um retorno sem imagem Nos espelhos do destino, É um grito sem amarras Um poema sem palavras Que vivemos no caminho. O que trago ou não trago O que canto e dou ao fado Só eu sei o quanto dói, Ver nos olhos de toda a gente O silêncio de quem sente O quanto a vida nos destrói. Visto noites e cansaços No meu corpo, nos teus braços Na distância, o teu olhar, Roda a roda do destino Acendo velas no caminho Numa pressa de te amar. Só há Fado e solidão Esta dor e um coração Nos meus olhos a bailar, E no céu da minha noite Já nem há onde me acoite Tanta estrela sem brilhar.

⁠Tremores - E eis que na solidão da praia deserta Caem águas do meu triste olhar,
Continuar lendo

⁠Tremores - E eis que na solidão da praia deserta Caem águas do meu triste olhar, Mas essa água que me aperta Não é menos que as águas do mar. Não me lembro de existir dentro de mim Algo maior que a palavra solidão, Algo mais seco que a amargura d'um jardim Plantado junto aos portais do coração. Há uma noite enleada aos desejos de cada um, Um grito, uma metáfora de saudade, Uma vontade de comer que é jejum Que a trazemos desde o berço por piedade. E o que ser para além d'um silêncio sem destino?! Um planeta sem elipse, uma curva, Uma pedra só, pisada no caminho, Um punhal numa fonte de água pura!