Frase de Pedro de Alexandre
A Dança da Caneta e da Tinta Eu quero muito escrever, Quero poetizar o mundo. E quando eu escrever versos, Que a caneta seja eu. E que eu ouse juntar as linhas, Sair delas sem rumo, E que você seja a tinta fresca Escorrendo sobre a direção, O rumo tomado pela caneta. Que haja palavras e letras em revolução No instante em que a tinta e eu Estivermos em transe; Que haja sopro de prazer e almas Quando as linhas se chegarem Diante das veredas dos traços livres. Que os livros velhos voem como pássaros, Que o invisível tenha coragem De se despir da couraça estúpida, Do breu da ignorância e do medo, Mostrando-se como tal e qual. E se as linhas voltarem à linearidade, Que ousem se juntar, uma a uma: Ponta a ponta, ponto a ponto. Uma linha robusta, infinita, única, Onde nada fica nas entrelinhas. Onde tudo cabe, inclusive nós: A caneta e a tinta que somos. E que se firme espiralado, Do horizontal ao vertical, infinitamente, Se abrindo na base o tanto preciso Para que o broto esteja sempre vivo. E assim, a escrita fica mais flexível, As palavras mais fluidas, A caneta mais sensível à arte, E a tinta com mais espaço para brincar De escorregar das vias de regras.
No pensador.ai desde