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Frase de Hércules Vinícius dos Santos Oliveira

⁠Depoimento do Abismo – Parte II Às vezes penso se algum dia fui algo. Um nome. Um corpo. Um gesto de humanidade. Mas essas memórias, se existiram, apodreceram sob o peso das águas. O tempo aqui não passa — ele apodrece. É um tempo imóvel, estagnado, onde tudo que respira morre em silêncio. O que resta são vestígios de pensamentos, ecos de uma razão que tenta sobreviver ao esvaziamento de si mesma. Pergunto-me: o que é a dor quando não há mais corpo? E descubro que ela sobrevive mesmo assim, porque a dor é anterior à carne — ela é a lembrança do que fomos, a cicatriz deixada pela ausência de sentido. Aqui, a consciência não se extingue. Ela se estilhaça, se parte em fragmentos que flutuam sem direção, como restos de naufrágio num mar sem horizonte. Eu os observo, esses fragmentos. E cada um carrega uma versão de mim que não reconheço. O que sou agora é um silêncio que pensa. Um vazio que filosofa sua própria forma. Compreendo, enfim, que o verdadeiro castigo não é o fogo, nem o tormento físico. É o excesso de lucidez num lugar sem realidade. É saber demais num espaço onde nada tem nome. Aqui, a única certeza que tenho é que nunca sairei. Não por estar preso — mas porque já não há um "eu" que possa partir. O rio Aqueronte não aprisiona. Ele dissolve. Ele absorve o que resta da alma até que a alma se torne ele. E eu… já não sei se sou aquele que caiu, ou apenas mais uma corrente fria a arrastar outros para o mesmo fim.

Hércules Vinícius dos Santos Oliveira

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Pensador.com

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Outras frases de Hércules Vinícius dos Santos Oliveira

⁠ Eu e minha amiga Nina E lá estávamos nós, pedalando nossas bicicletas, deixando os cabelos dançarem ao sabor do vento. A estrada à nossa frente, a vida passando rápido, mas nossos olhares se cruzavam, e cada sorriso seu era como uma centelha que me impulsionava a ir mais long…
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⁠ Eu e minha amiga Nina E lá estávamos nós, pedalando nossas bicicletas, deixando os cabelos dançarem ao sabor do vento. A estrada à nossa frente, a vida passando rápido, mas nossos olhares se cruzavam, e cada sorriso seu era como uma centelha que me impulsionava a ir mais longe. Meu coração batia forte, ansioso por descobrir algo novo, algo que só o desconhecido poderia nos oferecer. Nina, com seu jeito único, misturava meiguice com uma pitada de loucura. Como não se encantar por ela? A menina das histórias mais fascinantes, dos momentos mais inesperados. Cada palavra que ela pronunciava era como uma página de um livro que eu nunca quisesse terminar. Chegamos à beira da barragem, e seus olhos brilhavam como estrelas refletidas na água. Era como se o sol inteiro estivesse contido neles, iluminando tudo ao redor. Naquele momento, o mundo parecia se resumir à maravilha que era vê-la admirar a paisagem. Era a pureza de uma criança, a profundidade de uma mulher e a doçura de uma menina, tudo em um único olhar.

⁠Uma guerra está sendo travada. Não uma só. São guerras sobrepostas —
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⁠Uma guerra está sendo travada. Não uma só. São guerras sobrepostas — territórios, ideias, narrativas. Guerras que atravessam continentes como ventos quentes, queimando o que resta de paz nas esquinas do mundo. De um lado, um povo. Do outro, outro povo. No meio, o pó dos edifícios, o silêncio após a explosão, os olhos vidrados de quem ainda respira. As fronteiras não são mais apenas linhas no mapa. Viraram cicatrizes abertas na carne da Terra. As crianças correm, mas não sabem mais para onde. Correm entre os escombros, entre pernas amputadas, entre bonecas queimadas, entre memórias que se desintegram no ar. O planeta inteiro sente. Não há lugar onde o eco dessa violência não alcance. As telas transmitem em tempo real a queda do outro como se a dor pudesse ser consumida com um clique. Não há heróis. Não há vencedores. A pólvora tem o mesmo gosto amargo dos discursos. Os céus escurecem de fumaça, o chão afunda sob os pés de quem perdeu tudo e ainda tenta nomear o que restou. O tempo desacelera diante da destruição. Uma escola se desfaz em poeira. Uma mulher grita. Um velho cava com as mãos o corpo do filho. O mundo gira, mas nada se move para impedir. A geopolítica dança em salões gelados enquanto os corpos ainda estão quentes no chão. É por isso que não é apenas uma guerra. É o colapso da empatia, é a falência da escuta, é a ausência de humanidade sendo televisionada como espetáculo. E ainda assim, seguimos.

⁠Entre o cântico e o tambor: uma filosofia entre o Gregoriano e o Iorubá Exu abriu os caminhos — e com seus pés de encruzilhada, nos levou até esta pergunta:
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⁠Entre o cântico e o tambor: uma filosofia entre o Gregoriano e o Iorubá Exu abriu os caminhos — e com seus pés de encruzilhada, nos levou até esta pergunta: O que é estar junto, senão duas almas que aprenderam a habitar a si mesmas? O que é o amor, senão um espelho onde Ori reconhece Ori, e o destino se curva ao gesto de permanência? Antes de tocar a alma do outro, mergulha na tua. Desce os degraus do teu próprio abismo, ajoelha-te diante de tua sombra, e pergunta: — Quem sou eu, quando o silêncio me olha? Porque amar não é possuir. Amar é sustentar o peso do outro com as mãos que já aprenderam a carregar a si mesmas. Ìwà, o caráter, é o solo onde floresce o vínculo. Sem ele, tudo apodrece: até a doçura, até a promessa. É preciso tempo. Tempo para decantar. Tempo para conversar com tua ancestralidade, ouvir os ecos do teu Egbé, e deixar que Àṣẹ conduza os gestos ao ritmo da tua verdade. Conhece-te. Aceita o teu caos. Abraça teu corpo como templo e teu espírito como rito. Não exijas do outro aquilo que tua alma ainda não é capaz de ofertar. Não prometas o céu, se ainda chove dentro de ti. Relacionar-se não é preencher um buraco — é celebrar o transbordo. Porque, se não há plenitude em tua solitude, haverá apenas ruína na partilha. Melhor seguir só, inteiro em tua solidão, do que acompanhado, mas vazio de ti. Exu não responde com respostas. Ele oferece caminhos. E cada escolha é uma oferenda ao próprio destino.

⁠A Solidão e os Abutres Viver só, ou cercado — dá quase no mesmo. Às vezes, estamos entre mil… e ninguém.
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⁠A Solidão e os Abutres Viver só, ou cercado — dá quase no mesmo. Às vezes, estamos entre mil… e ninguém. Sorrisos nos cercam como urubus em assembleia, e o afeto? Uma encenação de quinta categoria. Somos carneiros calados, sendo bicados aos poucos, comendo da podridão com cara de gratidão — porque, veja bem, é feio reclamar. Enquanto isso, no alto, um abutre elegante espera sua hora: espera você cair, apodrecer direitinho. Quer o melhor corte, o mais macio. Mas a solidão — ah, essa sim — é honesta. Não finge amor. Não sorri para depois morder. Ela arranca suas ilusões como quem tira um curativo podre. Dói? Sim. Mas é limpeza. Estar só é ver o mundo sem o Instagram alheio, sem a lente do desejo do outro, sem o eco dos que te querem menor — ou igual, o que é quase pior. É você com você. Uma conversa sem filtro. Onde ninguém interrompe com conselhos que nem servem pra eles mesmos. E então, no meio desse abismo limpo, você começa a pensar. (De verdade, não com frases prontas.) Descobre que sabe andar, criar, e até gostar de si — o que, convenhamos, deixa muita gente incomodada. Porque quem se basta não é fácil de enganar. Quem anda só não serve pra rebanho. A solidão tem esse poder: te limpa dos abutres e ainda te dá o prazer de vê-los passando fome.