Frase de Hércules Vinícius dos Santos Oliveira
Depoimento do Abismo – Parte II Às vezes penso se algum dia fui algo. Um nome. Um corpo. Um gesto de humanidade. Mas essas memórias, se existiram, apodreceram sob o peso das águas. O tempo aqui não passa — ele apodrece. É um tempo imóvel, estagnado, onde tudo que respira morre em silêncio. O que resta são vestígios de pensamentos, ecos de uma razão que tenta sobreviver ao esvaziamento de si mesma. Pergunto-me: o que é a dor quando não há mais corpo? E descubro que ela sobrevive mesmo assim, porque a dor é anterior à carne — ela é a lembrança do que fomos, a cicatriz deixada pela ausência de sentido. Aqui, a consciência não se extingue. Ela se estilhaça, se parte em fragmentos que flutuam sem direção, como restos de naufrágio num mar sem horizonte. Eu os observo, esses fragmentos. E cada um carrega uma versão de mim que não reconheço. O que sou agora é um silêncio que pensa. Um vazio que filosofa sua própria forma. Compreendo, enfim, que o verdadeiro castigo não é o fogo, nem o tormento físico. É o excesso de lucidez num lugar sem realidade. É saber demais num espaço onde nada tem nome. Aqui, a única certeza que tenho é que nunca sairei. Não por estar preso — mas porque já não há um "eu" que possa partir. O rio Aqueronte não aprisiona. Ele dissolve. Ele absorve o que resta da alma até que a alma se torne ele. E eu… já não sei se sou aquele que caiu, ou apenas mais uma corrente fria a arrastar outros para o mesmo fim.
Hércules Vinícius dos Santos Oliveira
No pensador.ai desde