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Frase de Alicia Salvaterra

⁠Havia um miúdinho, sem nome nem passado, nu, esquecido, andava sozinho pela rua, escaldante de tão gelada, como sombra sem dono. Tinha um corpo feito de cortes e pedras, parecia ter sido mastigado por calçadas com dentes. Era um pobre coitado, seguido sempre por um cão magro, tão sofrido, igual a ele. Sentavam-se no pedregulho duro à espera de um fim. O miúdo, paciente, esperava que o cão partisse, descansasse no reino dos cães, para então poder matá-la — a fome. O cão, por sua vez, até aprendera a contar horas, de tanto esperar que o miúdo, vermelho de dor, fechasse os olhos e dormisse de vez. Assim, ele saciaria a fome com lógica cruel, mas destino cego. O cão não ladrava, e não sabia truques, era inútil. O miúdo, por sua vez, também não sabia nada, nada lhe ensinaram. Era inocente, imprestável, invisível ao mundo. Ambos só serviam um ao outro, à ninguém mais. Certo momento... o miúdo, já derrotado, deitou a cabeça no granito para poder descansar o seu corpo cansado, o cão, desesperado, cravou como os seus dentes podres no peito nu do miúdo, com dó e piedade, pois isso ainda lhe restava. Mas morreu também, porque o miúdo, coitado, não tinha carne sequer para alimentar um cão.

Alicia Salvaterra

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Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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⁠Que infelicidade a minha. Fui experimentar sofrer, e acabei por sofrer de verdade.