Pular para o conteúdo

Frase de Roberto Eduardo da Costa Macedo

A MENTIRA Este jeito tão agudo tornou-a célebre atriz: Mentira se presta a tudo e em tudo mete o nariz. Verão a fé que ela inspira, afirmando à gente nova que se engana, que é mentira o que Mentira reprova. Digam lá ao poderoso, a quem ela lisonjeia e cativa e traz baboso, que seja a Mentira feia! Se lho dizeis, sois corridos, alcunhados de intrigantes, de patifes, de vendidos, de pandilhas, de tratantes. Mentira, Calúnia, Intriga, Lisonja ou Hipocrisia são capas em que se abriga, mantos com que se atavia. A Mentira é cadastrada, usa vários apelidos, sempre bem caraterizada, sempre a mudar de vestidos! Tem modos de regateira, usa navalha na liga e pistola na algibeira? É a Calúnia, A Intriga; Vem de carinha de santa, de voz meiga e fala pia e de ternura que encanta? Chama-se a Hipocrisia. Mentira sabe viver, com jeito viver procura; é amante do Poder e dá o braço à Fartura. Mentira tira partido do seu engenho matreiro, tal como o lobo vestido com pele de cordeiro; É coxa, se ouve dizer, mas, quando se põe a andar, nem sempre, mesmo a correr, ela é fácil de apanhar. Lá vem um dia a Ciência, de imortal tenacidade e de invencível paciência e proclama a Verdade. Muitas vezes a Verdade mora nos mais altos Céus, não desce à Humanidade, é privilégio de Deus; Então aí a Mentira, achando-se sem rival, traça, volta, risca, gira, orgulhosa e triunfal. Mentira diz triunfante: «Mentira existe, logo há-de (Mentira comediante!) ser a Mentira...Verdade». Mentira consome a vida a fingir ser a Verdade é como mulher perdida a aparentar castidade. Mentira toda se vira, Mentira toda se ajeita, Mentira toda se enfeita, mas fica sempre Mentira. Mentira toda taful, Mentira toda aparência é de incógnita ascendência e afirma ter sangue azul. Se acaso lhe perguntais, ao vê-la passar ligeira: - «Ó Mentira, onde é que vais?» responde toda lampeira: - «Vou a casa de meus pais». Tem sete filhos Mentira, filhos bem originais; Estes filhos da Mentira... ...são os pecados mortais.

Roberto Eduardo da Costa Macedo

No pensador.ai desde

Fonte e informações de autoria

Pensador.com

Abrir fonte original (abre em nova aba)

Outras frases de Roberto Eduardo da Costa Macedo

O MEU VARINO Ao Dr. Francisco Ferreira Neves Gabão, varino de Aveiro,
Continuar lendo

O MEU VARINO Ao Dr. Francisco Ferreira Neves Gabão, varino de Aveiro, quase sexagenário, tem sido meu companheiro, com vigor extraordinário; O alfaiate Gafanha, autor do risco e do corte, deu-lhe rigeza tamanha que tarde verá a morte; Estaria como novo, se não surgisse a desgraça, o descuido, que reprovo, de defendê-lo da traça; Acalenta tronco e pernas, é completo agasalho; tem o ar das coisas eternas, no inverno de ele me valho; Protege cabeça e rosto, a ser cantado tem jus, a ser em relevo posto, seu altaneiro capuz. Que boa fazenda aquela, já se não vê no mercado! Não entrava a chuva nela, nem o vento mais danado! Ficou por onze mil réis, nos tempos que já lá vão, em que eram outras as leis, o meu valente gabão. «Precisa o senhor Roberto» disse o Diretor, com tino, para meu Pai, e deu certo, «de abrigar-se num varino». Ele deu esta sentença justa e mui sensatamente, porque de séria doença me achava convalescente. Agora está interdito vir à rua em tal farpela, pois o automóvel maldito quer pressa, tudo atropela. Mas em casa, no sossego que não tem tal desatino, me agasalho, me aconchego, me envolvo no meu varino. Gabão, varino de Aveiro, é trajo tradicional e português verdadeiro, mas do antigo Portugal. Meu gabão dos tempos idos, dos tempos de colegial, estamos envelhecidos, fora da moda, afinal! Porto, Portugal, Maio de 1963

O CLAMOR D'OS SEM TRABALHO As fábricas encerradas, Fechadas as oficinas;
Continuar lendo

O CLAMOR D'OS SEM TRABALHO As fábricas encerradas, Fechadas as oficinas; Só estão escancaradas As mil bocas pequeninas, As mil bocas adoráveis, Dos filhos dos miseráveis! É o trabalho um dever A que o Homem foi sujeito? Nós julgamo-lo um direito. Qual será maior pesar: Pedir pão e não o ter, Ou não ter onde o ganhar?

O MEU PAÍS Quero país Flor-de-lis;
Continuar lendo

O MEU PAÍS Quero país Flor-de-lis; Democracia De fidalguia; Povo lavado E penteado; Cidadão Cristão, Homem irmão, Filho de Deus, Anjo dos céus; Habitação, Um coração, Conchego e amor; Embalo e flor; Piso Liso; Rua de luz, Que conduz, Aos largos da Saúde, Da Força e da Vitude, Cidade, Mocidade; Grandeza De Beleza E movimento Sem tormento; União, Ação Coordenação; A apologia Da harmonia; Tudo a girar No seu lugar. Vieira do Minho, 1937

POLÍTICOS O ladino do polvo toma a cor Da pedra, areia, ou lodo, em que se deita,
Continuar lendo

POLÍTICOS O ladino do polvo toma a cor Da pedra, areia, ou lodo, em que se deita, A fim de conseguir, assim, melhor Caçar a presa que escondido espreita. Quando ela passa, longe da suspeita, Esperto, como um tímido traidor, Na água negro líquido ele deita Que cega a presa e esconde o caçador. Políticos também em Portugal Há que MUDAM DE COR perfeitamente, Sem quase meio mundo dar por tal. Mas, quem tem uma vista regular Está a vê-los por aí continuamente De olhar attento à CATA DE UM LUGAR. Coimbra, 20-02-1908