Frase de Roberto Eduardo da Costa Macedo
O MEU VARINO Ao Dr. Francisco Ferreira Neves Gabão, varino de Aveiro, quase sexagenário, tem sido meu companheiro, com vigor extraordinário; O alfaiate Gafanha, autor do risco e do corte, deu-lhe rigeza tamanha que tarde verá a morte; Estaria como novo, se não surgisse a desgraça, o descuido, que reprovo, de defendê-lo da traça; Acalenta tronco e pernas, é completo agasalho; tem o ar das coisas eternas, no inverno de ele me valho; Protege cabeça e rosto, a ser cantado tem jus, a ser em relevo posto, seu altaneiro capuz. Que boa fazenda aquela, já se não vê no mercado! Não entrava a chuva nela, nem o vento mais danado! Ficou por onze mil réis, nos tempos que já lá vão, em que eram outras as leis, o meu valente gabão. «Precisa o senhor Roberto» disse o Diretor, com tino, para meu Pai, e deu certo, «de abrigar-se num varino». Ele deu esta sentença justa e mui sensatamente, porque de séria doença me achava convalescente. Agora está interdito vir à rua em tal farpela, pois o automóvel maldito quer pressa, tudo atropela. Mas em casa, no sossego que não tem tal desatino, me agasalho, me aconchego, me envolvo no meu varino. Gabão, varino de Aveiro, é trajo tradicional e português verdadeiro, mas do antigo Portugal. Meu gabão dos tempos idos, dos tempos de colegial, estamos envelhecidos, fora da moda, afinal! Porto, Portugal, Maio de 1963
Roberto Eduardo da Costa Macedo
No pensador.ai desde