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Frase de Andrê Gazineu

Em certeza, nada é mais árduo que sentir que somos dependentes de uma consciência plenamente satisfeita de bem-estar. Na teoria, um humano adora banhar-se nas águas do ficar bem. O conforto nos inunda, a dor nos desconecta e nos separa da consciência. Boa parte de nós olha o espinho e vê a dor. A não ser que você seja um garçom. Fazer um garçom olhar para você quando você REALMENTE precisa é como processar uma empresa de telefonia e VENCER. Você simplesmente não pode. Bem-estar e dor funcionam como um grande rio: obviamente chegarão ao mar. É uma aposta segura que chegarão ao mar, não um evento certo. Tocar o chão com o pé esquerdo cria choques em dor nos ligamentos. Sempre haverá um deserto árido para um homem redimido de um pecado. Um homem de alcatrão, o inverso de Adão. O Golem hebreu fora feito para servir e logo ganha força: o problema sempre foi o fazer parar. Então eu tenho um vislumbre da infância antiga, velha abatida. De coração ainda palpitante, o sol em zênite, o sol para beber sua fronte. Tudo tinha acontecido lá. O medo daquelas pessoas que não se importam em magoar e não se importam em se magoarem. Não são necessários morte e sacrifícios e deuses cruéis para reinar sob a luz do sol e sob o esplendor de flores e pássaros e muitos picos vulcânicos em meio à surpresa.

Andrê Gazineu

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Pensador.com

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Arcano O tronco tortuoso tinha casca lisa que descamava em placas finíssimas Folhas delicadamente discolores formavam uma copa tímida, mas persistente Que se ornará duma frutescência única Vi flores tão solitárias florescendo em junho... No nascer do sol O cheiro da seiva vertendo no floema A umidade no ar carregado A calmaria predizendo o último dia de vida O silêncio arrebentava-se na atmosfera Irrompendo furioso no espaço conquistado Perdendo-se no lado escuro da alma vazia Demônios vestidos de sangue brincam na mata Sorrindo por uma nova estação enlevada Soprando injúrias no vento Porque é preciso morrer Porque é preciso descer ao mundo inferior pelo terceiro caminho pronunciando o nome do inominável

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Olhando pela janela, vejo o sol incidindo Derrama luz na estante, no relógio, na maçaneta Na ampla sala vazia de cor A mesa está posta Toalha branca, límpida, ingênua Pratos limpos, panos largos, pães, leite Não há ninguém à mesa Há o silêncio, o abandono, o não ser Rastros invisíveis, sombras do vácuo Tudo passa despercebido e nada é nunca lembrado É a transmutação do tempo A natureza sendo absorvida para que minha sala nunca envelheça Para que seja embriagada no meu próprio passado A pergunta involuntária sem resposta Provei à cereja ácida Provei a angústia do momento em que nasci O início, o vazio, a quitina negra do ferrão O ponto letárgico onde a alma encontra barreiras tão obscuras... E não pude seguir adiante Dissoluto no fundo da morte encontrei teu viço jovem, infantil, puro Entendi o que é a paz; essa alegria distraída de viver este sopro macio no campo Um rubor na face macilenta Um instante estúpido contigo Eu esperarei por ti na vida, na morte, na distância No delírio da febre, na tristeza do pranto nas noites frias, nas minhas pálpebras fechadas Nas águas turvas do meu sono Sufocado no escuro, enlaçado na calada Sentei-me no chão ouvindo o ruído do nada Do sangue ascórbico corroendo faminto Do coração pulsando agudo por instinto Nega-te o alimento, o sustento diário [nega-te a vida Acostuma teu nome ao sinistro obituário Roga-te a praga, converte-te em semente E da moléstia, forma-te o carpelo de um mundo inconsolável e belo, doses excessivas duma fome demente E não há mais miséria na aguardente Nem pudor nas faces coradas Os braços rasgados de cercas farpadas O grito à ânsia, o fruto à serpente