Frase de André Vicente Carvalho de Toledo
Ofício Solar A noite é fria, e o frio fustiga o vão Onde o coração, sem eco, jaz no chão: Um cálix sem licor, um braseiro apagado, Um árido silêncio, desolado. Mas eis que a pálida aurora, em seu labor, Fende a mortalha do noturno horror. O Sol — cíclope eterno, forja em chamas — Tecendo o dia com douradas tramas. Não mero fulgor que apenas vela a dor, Mas alquimia sutil, um ato maior: Transmuta o gelo em seiva, o vazio em vaso, Onde a esperança, planta de tenro laço, Desabrocha — não em júbilo feroz, Mas em quieta alegria, como a voz Da fonte que retorna ao seu leito antigo, Da estrela que persiste no perigo. Nasce o dia. Não como um grito vão, Mas como o lume que a razão acende Na escuridão. É o gesto que desfende A vida do seu próprio abandono: O sol, Vênus, a alba... É o eterno dom De um novo tempo, um compassado som Que diz: Em ti, a luz se refaz agora." E o coração — vaso, crisol, forja ignora O frio da memória, e aprende, enfim, O ofício de ser luz, de ser jardim...
André Vicente Carvalho de Toledo
No pensador.ai desde