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Frase de Rui Pires Cabral

Devo dizer que sempre preferi os versos feridos pela prosa da vida, os versos turvos que tornam mais transparentes os negros palcos do tempo, a dor de sermos filhos das estações e de andarmos por aí, hora após hora, entre tudo o que declina e piora. Em suma, os versos que gritam: Temos as noites contadas. E também os que replicam: Valha-nos isso.

Rui Pires Cabral

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Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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Ao fim da noite, no frio do táxi, pousas a cabeça no meu ombro – e assim entramos duma vez e inteiramente na nossa vida.
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Ao fim da noite, no frio do táxi, pousas a cabeça no meu ombro – e assim entramos duma vez e inteiramente na nossa vida. Lá fora, pelo contrário, tudo perde realidade; há em toda a parte um sossego abstracto, as ruas parecem pintadas – betão entre as árvores – numa tela baça. Vamos por lugares que não reconheço, a minha geografia é vaga e omissa como a dos velhos cartógrafos que desenhavam um mundo cheio de espaços em branco. É onde estamos agora, num intervalo do mapa rente à primeira manhã – que será a nossa e também a última.

Vejo-te um pouco como se já não houvesse uma casa para nós. As grandes perguntas estão aí por todo o lado, onde quer que se respire, dentro
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Vejo-te um pouco como se já não houvesse uma casa para nós. As grandes perguntas estão aí por todo o lado, onde quer que se respire, dentro dos próprios frutos. É o começo da noite e os cinzeiros já estão cheios de meias palavras: porque escolhemos tão pouco aquilo que nos pertence? Vejo-te de olhos fechados enquanto me confiavas a tua história – à mesa da cozinha, quase um espelho, quase uma razão. As minhas canções preferidas pareciam convergir para ti a certa altura, dir-se-ia que te vestias com elas. E no entanto como se apressaram as grandes florestas a invadir as gavetas, como misturaram as raízes no eco que fazia o teu desejo contra mim.

Que mais podemos fazer? Este amor é um país cansado que não nos deixa mudar.
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Que mais podemos fazer? Este amor é um país cansado que não nos deixa mudar. O medo cerca as fronteiras e a capital é Nenhures, cidade de perdulários e pequenas ruas tortas onde vem morrer a noite – aqui estamos ambos sós, desunidos, extraviados, não há táxis na praceta nem cinzeiros nos cafés e perdemos os amigos entre as curvas de um enredo que deixámos de seguir. Mas não era nada disto o que tinha na cabeça ao começar a escrever: os versos chamam o escuro, abrem os portões ao frio e eu quero estar nas colinas do outro lado do rio.