Frase de Luanna Belmont
existi furiosamente no instante quebrado que me dedicaram seus olhos desocupados do que poderia haver de mais belo
No pensador.ai desde
existi furiosamente no instante quebrado que me dedicaram seus olhos desocupados do que poderia haver de mais belo
No pensador.ai desde
eu porém tantas vezes não estava pronta banho tomado penteada asseada jantada
eu porém tantas vezes não estava pronta banho tomado penteada asseada jantada crescida formada empregada quase morta pra quando minha mãe chegasse eu não estava pronta eu resistia a todos os meus deveres eu me insubordinava eu teimava toda uma vida (ainda teimo) eu não me limpava só pra ver se minha mãe chegaria a despeito de mim a despeito da sujeira do erro da noite a despeito da espera a que assim fingindo não esperar eu me recusava foi assim por muitos anos minha mãe e eu numa língua estranha e indecisa embora fosse a mesma língua a limpeza que eu deveria guardar para ela e oferecer a ela na volta ainda guardo comigo e de repente deparo com ela (que ainda espera) num livro numa voz estranha numa outra mulher que também esperou numa banheira vazia o seu amor voltar
Tem uma mulher que eu amo. Olhos doídos, pálpebras mornas.
Tem uma mulher que eu amo. Olhos doídos, pálpebras mornas. Já acalentou crianças, deu-lhes o corpo, alimentou, limpou suas lágrimas, fez sorrir com voz calma. Filhos, talvez netos. Soube renascer neles tantas vezes. Conhece a fragilidade humana. Eu beijo os lábios fechados dessa mulher, a partir dos cantos, em pequenas lascas de ternura e queda no vazio. Essa mulher viveu coisas que me abastecem. Ela fala de alegrias, de sóis, sobremesas, decotes, livros, enganos. Vai falando e contornando dores com pequenas pausas, no que os cílios superiores tocam os cílios inferiores demoradamente, e ela afunda. Aperto sua mão e ela emerge. Enquanto a ouço, beijo seus olhos. Digo-lhe que é uma mulher, ainda.
Poucos homens despertaram em mim o desejo de ser eu mesma. Dois, talvez três em toda a vida.
Poucos homens despertaram em mim o desejo de ser eu mesma. Dois, talvez três em toda a vida. O primeiro meu pai, que, quando nasci, perdeu-se amorosamente em mim até se achar outra vez mais tarde não saberia precisar esquecido de não ser, voltando a ser homem. Não tenho irmãos. Tenho um primo que certa vez derrubei no chão sem querer enquanto brincávamos. Foi quando entendi que o trabalho do ódio é mapear circunstâncias aleatórias em torno de feridas alheias que nem são nossas portanto alheias aprendidas. É bonito como a criança resiste ao ódio, se assim lhe permitem.
Vieram os homens que eu não queria, mas que me queriam, e os que eu queria, e não pude ter.
Vieram os homens que eu não queria, mas que me queriam, e os que eu queria, e não pude ter. Os homens que não pude ter eram sempre enormes, ambidestros, bonitos como o meu pai quando meu pai não era homem, quando meu pai era eu mesma, perdido de amor.