Frase de Leonardo Azevedo
O Vazio de Ivan em Mim Não é que eu não queira crer. Queria. Com a mesma força com que respiro, com a mesma urgência com que busco sentido quando o mundo me fere. Mas há em mim — como havia em Ivan — um vazio que não se preenche com promessas, nem com orações que ignoram o grito dos que padecem. Não nego Deus. Mas me recuso a aceitar um paraíso onde o preço seja o choro inconsolável de uma criança torturada. Se a matemática da salvação exige esse débito, então que me excluam da equação. Devolvo o ingresso. Não me serve um céu comprado com sangue inocente. Minha dor não é a do ateu. É a do exilado. Não me falta fé — me falta reconciliação. Entre o que vejo e o que dizem que há. Entre a razão que me habita e o absurdo que me cerca. Entre o amor que imagino ser divino e o horror que assola o mundo sem trégua. Carrego a lucidez como lâmina. Ela me corta todas as noites. Me acorda. Me sangra. Mas prefiro essa dor do que o conforto mentiroso da inconsciência. E, no entanto, por vezes, invejo os que crêem sem feridas. Os que chamam de “mistério” o que eu ouso chamar de “injustiça”. Os que abraçam um Deus com olhos fechados, enquanto eu — pobre de mim — insisto em fitá-lo de olhos abertos, sem saber se Ele me vê. Talvez um dia eu compreenda. Ou talvez minha travessia seja essa mesma: caminhar com o coração em ruínas e a mente em labaredas, entre o silêncio de Deus e o clamor dos homens. Mas sigo. Não por esperança. Nem por fé. Sigo porque parar seria entregar-me à loucura. E entre a insanidade e a ausência de sentido, escolho — por ora — a lucidez dolorosa de quem carrega o vazio como cruz e como bússola.
No pensador.ai desde