Frase de Roberto Eduardo da Costa Macedo
A HISTÓRIA MAIS BELA E MAIS SOMBRIA De família modesta, sem dinheiro, casou-se com humilde carpinteiro. E tão pobre ficou este casal que nasceu o seu filho num curral. O berço deste foi a manjedoura onde comiam a jumenta e a toura. De palha solta deram-Lhe o colchão como se fora a uma ovelha ou cão. Nunca, até agora, mais modesto abrigo se dispensou para qualquer mendigo. Mas este quadro de miséria extrema é um canto de amor, um doce poema. Não é por ser nascido num castelo ou em palácio que se nasce belo ou que se tem o génio ou o talento, íman na voz, o sol no pensamento. A simpatia, a graça, a formosura, dons afectivos, candidato, ternura, não fazem privilégio de alta roda, das damas da nobreza e grande moda. Dessa pobre Mulher do humilde povo nasce um Menino que é o Mundo Novo, a ideia nova, a redenção, a aurora, a luz do amor, a voz libertadora. Logo ao nascer era de maravilha toda a expressão que no seu modesto leito o crê predestinado a grande feito. Tanto correu e se espalhou a fama que até os Reis de muito longe chama e também veio vê-Lo pressuroso o tirano, o soberbo, o invejoso, que logo acharam, para si, perigo no mísero curral, no humilde abrigo; que logo, tendo em conta seu regalo, ao Menino, planearam de matá-Lo, Mas esta pobre Mãe, triste plebeia, para o seu Filho todo o mal receia; Da visita dos maus Ela adivinha o fim, o vil intuito que continha; E resolve fugir... espera a noite, sombra que tudo esconda, onde se acoite; Numa jumenta cavalgando vai, com o Filhinho ao colo, aquela Mãe, levando ao lado atento caminheiro, como zeloso guarda, o carpinteiro. Procuram os caminhos mais escusos, apavorados, trémulos, confusos, e só pararam atingindo o alvo, o seu Menino Amado ver a salvo, quando chegaram a outro país amigo, onde encontraram protecção e abrigo. ---------- E o Menino cresceu e correu Mundo e mais cresceu o seu saber profundo, pois ainda criança aos mestres espantava, com as sábias respostas que lhes dava. ---------- A Força avassalava a maioria, o povo, a multidão, tudo sofria; O Senhor tinha mando e privilégio, e dava e transmitia o poder régio; Filho de escravo era também escravo, que podia espremer-se como um favo, amoldar-se à vontade do senhor, sem compaixão, sem atender à dor; O idolatra da força estava em voga, era o carrasco que vestia a toga. ----------- Então Esse de humilde nascimento começou a pregar seu pensamento. Era belo e incisivo no dizer, quem o escutasse era incitado a crer. Discípulos, em breve, conquistava, sua doutrina mais se propagava. O sofredor, o pobre, o deserdado achavam maravilhas no Seu brado. O tirano, o soberbo, o invejoso também veio escutá-Lo pressuroso. Ele exaltava o humilde, o que sofria; o império de Seu Pai lhe prometia. Pregava o amor a Deus, Seu Pai Celeste, e se exprimia sempre em nome Deste: «Quem não amar, na terra, o semelhante ofenderá Meu Pai, no mesmo instante» ---------- E a Mãe no Filho toda se revia, mas o tirano não adormecia e novo susto, nova dor a espreita; ele prepara-lhe a feroz receita: Entre os amigos de O que prega o Amor, descobre, encontra o réptil traidor. O beijo duma boca envenenada foi o primeiro gesto da cilada. O beijo denuncia, identifica, depois surge a chicana, a fraude, a trica; esbirros são armados em juízos, a decisão do arbítrio quer raízes, quer dar-se à burla aspecto de decência, o traficante joga na aparência. A causa de principio está julgada, em bastidor foi a sentença dada, se pinta a Via Sacra e o Calvário para servir de fundo no cenário. A trama urdida só a um fim conduz, a que se pregue o Justo sobre a cruz. Aquele que somente amor exprime se acusa e culpa do mais negro crime; a gente rica, bem tratada e nédia nem sequer se apercebe da tragédia; o povo ladra, no seu louco engano, cão assolado, a soldo do tirano; com medo dos terrores, dos castigos, apavorados fogem os amigos. Só Ela fica, sem receio a nada, quer com o Filho ser crucificada. ---------- A Igreja, velha, sábia e previdente, todos os anos, infalivelmente, grita ao rebanho, chamar-lhe à memória essa tragédia, essa sombria história, pois nela vive o sentimento amargo de que anda o lobo farejando ao largo; para evitar o assalto do inimigo que é bem preciso reforçar o abrigo, manter, para o combate ao malefício, espírito de heroísmo e sacrifício, se for preciso, transportar a cruz, saber nela morrer, como Jesus! ---------- A Mãe que mais amou e mais sofreu, ao Filho inteiramente consagrada, em nuvens de almas se elevou ao Céu, ao som de hinos de Glória e de Alvorada. Humilde, frágil, filha de plebeu, com simples carpinteiro era casada, curral foi a morada onde nasceu a Vida que Ela viu crucificada. Atingiu da beleza a plenitude: Pela escada subiu do sofrimento ao vértice do amor e da virtude. Nunca existiu amor tão vivo e atento! Mães, que supondes vossa empresa rude, eis montanhas de fé, rios de alento! Porto, Abril de 1955
Roberto Eduardo da Costa Macedo
No pensador.ai desde