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Frase de Créusio Kizua

O que achei depois da ilusão Esta não é uma carta de prosperidade. Não é um relato de vitória. Não é uma narrativa otimista construída para convencer alguém de que tudo acontece por uma razão ou de que, no final, tudo ficará bem. Não sei se ficará. Escrevo de um intervalo. Um espaço estranho entre quem fui e aquilo que ainda não sei nomear. Durante muito tempo acreditei que estava vivendo minha própria vida. Hoje suspeito que apenas executava uma sequência de instruções herdadas. Estude. Trabalhe. Produza. Conquiste. Resista. Suporte. E eu suportei. Suportei tanto que transformei o peso em identidade. Passei a admirar minhas cicatrizes mais do que minhas necessidades. Confundi exaustão com virtude. Confundi utilidade com valor. Confundi sobrevivência com existência. Fui o homem que carregava. O homem que resolvia. O homem que seguia. O homem que sempre encontrava uma forma. Mas ninguém me perguntou se eu ainda queria carregar aquilo tudo. Nem eu. Talvez porque algumas perguntas sejam perigosas demais. Elas não derrubam apenas respostas. Derrubam estruturas inteiras. Então o abismo apareceu. Não como um monstro. Não como um inimigo. Mas como um espelho. E pela primeira vez percebi algo perturbador: eu não estava com medo do abismo. Estava com medo do que descobriria sobre mim ao olhar para dentro dele. Porque durante anos me tornei especialista em observar o mundo. Analisei sistemas. Pessoas. Comportamentos. Estratégias. Falhas. Mas havia uma região inteira de mim que permanecia interditada. Uma caverna onde escondi desejos. Medos. Raivas. Carências. Sonhos abandonados. Partes de mim que não cabiam na narrativa do homem forte. E quando aquela porta começou a abrir, tudo entrou em conflito. A carreira. Os relacionamentos. As crenças. A espiritualidade. A identidade. A própria ideia que eu tinha sobre quem era. Descobri que saber meu nome não responde quem sou. Saber meus gostos não responde quem sou. Saber meus objetivos não responde quem sou. Nem mesmo minhas conquistas respondem. Porque existe um ponto da existência onde o currículo perde valor. Onde a performance social perde força. Onde os títulos deixam de explicar a alma. E foi exatamente ali que me encontrei. Ou talvez tenha sido exatamente ali que me perdi. Ainda não sei. Só sei que algo morreu. Não fisicamente. Mas simbolicamente. Morreram versões de mim que eu jurava serem definitivas. Morreram certezas. Morreram personagens. Morreram narrativas que me mantiveram funcional por anos. E quando a poeira baixou, restou apenas o silêncio. Um silêncio pesado. Incômodo. Sem promessas. Sem aplausos. Sem distrações. Foi então que percebi que minha solidão não era ausência. Era convocação. Ela não queria me punir. Queria conversar. Queria que eu sentasse diante dela sem telefone, sem trabalho, sem justificativas e sem fuga. Queria me apresentar a alguém que passei anos evitando. Eu mesmo. E essa conversa continua acontecendo. Nem sempre de forma gentil. Nem sempre de forma bonita. Às vezes ela chega como revolta. Às vezes como vergonha. Às vezes como tristeza. Às vezes como uma pergunta simples que destrói uma semana inteira: "Se ninguém esperasse nada de você, quem você escolheria ser?" Ainda não tenho a resposta. Mas pela primeira vez parei de fingir que tenho. Hoje compreendo algo que antes me ofendia: a consciência tem um preço. Toda visão ampliada dói. Toda lucidez cobra. Toda verdade exige espaço. Porque enxergar não é ganhar conforto. É perder ilusões. E nenhuma ilusão abandona o palco sem resistência. Por isso não escrevo esta carta como alguém que venceu. Escrevo como alguém que despertou. E despertar não é um momento glorioso. É um processo brutal. É perceber que algumas das grades eram feitas pelas próprias mãos. É descobrir que parte do sofrimento vinha das correntes que chamávamos de identidade. É admitir que certas escolhas eram abandono disfarçado de responsabilidade. Hoje caminho sem muitas respostas. Mas com menos mentiras. E isso precisa bastar por enquanto. Não sei exatamente quem me tornarei depois desta travessia. Mas sei quem não consigo mais continuar sendo. Talvez esse seja o verdadeiro começo. Não a certeza. Não a paz. Não a iluminação. Mas a coragem de permanecer acordado enquanto tudo aquilo que era falso desmorona. E continuar olhando. Mesmo quando o abismo devolve o olhar.

Créusio Kizua

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Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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Só em conto de fada onde sa´pos viram principes. então não fiques parado a pensar k vai te acontecer um milagre desses!!!
O livramento ignorante Vivemos sob a lógica do livramento ignorante: diante de cada ruptura, apressamo-nos em dizer que fomos salvos de alguém antes de perguntar o que aquela experiência tentou revelar sobre nós. Vestimos o sofrimento com frases prontas, repetidas como sabedori…
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O livramento ignorante Vivemos sob a lógica do livramento ignorante: diante de cada ruptura, apressamo-nos em dizer que fomos salvos de alguém antes de perguntar o que aquela experiência tentou revelar sobre nós. Vestimos o sofrimento com frases prontas, repetidas como sabedoria, mas raramente compreendidas em tudo o que também exigem de quem as pronuncia. Uma delas é: “Escolha bem quem estará ao seu lado.” Todos falam sobre escolher bem quem estará ao nosso lado. Poucos falam sobre a responsabilidade de sustentar o lugar que pedimos para ocupar na vida de alguém. Aprendemos a avaliar quem merece permanecer conosco, mas raramente examinamos se possuímos maturidade para permanecer com quem escolhemos. Mais difícil ainda é reconhecer que podemos ter escolhido bem e, mesmo assim, não estarmos preparados para ser uma boa escolha para o outro. Encontrar a pessoa certa não nos transforma automaticamente na pessoa certa para ela. Podemos reconhecer o amor que desejamos e ainda não saber oferecer a presença, a verdade, o cuidado e a constância que esse amor exige. Há, evidentemente, relações das quais partir é preservação. Nenhum compromisso exige tolerar abuso, desrespeito ou apagamento de si. Mas nem toda perda é livramento. Algumas são consequência daquilo que não soubemos nomear, cuidar, reparar ou sustentar. Talvez a maturidade afetiva comece quando deixamos de perguntar apenas: “Escolhi a pessoa certa?” E encontramos coragem para perguntar: “Eu estava preparado para honrar essa escolha?” “Tornei-me alguém capaz de também ser uma boa escolha para ela?” Porque amar não é apenas encontrar. É aprender a habitar o vínculo sem ferir, permanecer sem se apagar, cuidar sem possuir e, quando partir for necessário, não falsificar a história apenas para escapar de si. Nem toda pessoa que perdemos era errada. Às vezes, era a nossa forma de amar que ainda não sabia permanecer.