Frase de Rodrigo Elias Cardoso
LIBERDADE: QUAE SERA TAMEN “Ainda que tardia” te tenha, ó Liberdade, não porque te falte o tempo, mas porque te deram o atraso pela corrupção. Tenho-te não como quem espera, mas como quem sustém. Não te recebi pronta, fiz-te em pressão, em retenção lúcida, em consciência que não se vende. Não nasceste tarde. Foste feita tardar. Foste contida, retida, ensinada ao atraso como método vil dos que precisavam do tempo para roubar o sentido. Chamaram-te sera como se o tempo te diminuísse, como se a demora te maculasse, e não como se o adiamento denunciasse a fraqueza dos que nunca suportam o peso do absoluto. Mas eu sei: teu tempo não é concessão. É finalidade. Enquanto te adiavam, eles aprendiam a corromper. Enquanto te soterravam, ensinavam-te a resistir por dentro. E quando a corrupção se fez mestra, não te destruiu: revelou-se. Porque ao ensinar o atraso, ensinou também quem não sabe esperar sem apodrecer. Do quinto antigo ao jugo de agora, muda-se a sigla, conserva-se a sangria; troca-se o selo, persiste a cobrança, e o tempo aprende a mesma tirania. Estado mais denso que o peso da serra, que em letra de lei destila a usura fria, drena no código o suor do fundo e chama de ordem o que é mineria. Dinastias de sombra, herdeiros do dolo, que transmitem o vício como capitania; fazem do saque sua regra primeira, sustento moral de quem nada cria. Do espólio fizeram condição de vida, sine qua non de sua vilania; pois onde a liberdade exige obra, eles subsistem de atraso e sangria. Onde estão agora os seus brados? Onde o clamor dos que gritavam posse e confundiam voz com direito? Do povo, só a dor! Calaram-se, não por virtude, mas por cárcere. Pois quando a Liberdade lhes fugiu; não tiveram dentro de si lugar onde habitá-la. Tenho-te, Liberdade. Não como ideia, mas como fim. Não como abstração, mas como decisão. Não te devo ao tempo. O tempo é que te deve a mim. E ainda que digam que vens tarde, sei: tardio é o mundo que não suporta o peso do que é absoluto. Não mais “ainda que tardia”. Mas Liberdade; mesmo quando feita tardar, permanente. Mesmo quando silente, imperativa. Pois com a verdade, “quae sera tamen, Libertas”.
No pensador.ai desde