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Frase de Ricardo Pasqual

MARCAS MEMORIAIS A chuva escorre por uma de minhas facetas Contorna e acolhe o corpo que se esqueceu de cansar Goteja pelas mãos agora encharcadas Mãos que carregam cicatrizes Escaras que me recordam daquele negro sorriso Expressão irônica do demônio que há muito tranquei Criatura que ainda grita e convulsiona nos porões do meu ser Que compõe notas caóticas com as correntes que lhe amarrei Numa melodiosa cacofonia sem fim Calendários se perderam na batalha… No tempo em que esse espectro turvo se rejubilava Com cada gota rubra-cintilante derramada Sorria em escárnio com seus dentes encardidos E me alfinetava com seus mesmerizantes sussurros gemidos Nesta guerra, por ora, a batalha está ganha O atroz arlequim agora ri desesperado e trancado na escuridão As marcas nos punhos fazem o seu papel nessa peça Lembram-me de mantê-lo preso Lembram-me da cor das cinzas invadida pelo vermelho vão… Mas agora preocupação não há A chuva me espera e volto a andar Quem ri agora sou eu E a este debochado demônio… Só lhe resta gritar e espernear

Ricardo Pasqual

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Pensador.com

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ATEMPORALIDADE POÉTICA Me perguntam sobre os sentimentos versificados “São sentimentos do passado?”
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ATEMPORALIDADE POÉTICA Me perguntam sobre os sentimentos versificados “São sentimentos do passado?” “São sentimentos do presente?” Sim para as duas indagações E mais… São sentimentos do futuro e de um tempo ausente Mas não somente sobre o tempo me inquirem Querem saber a pessoa do tempo “Para quem escreve?” Escrevo para alguém do presente Que anda de mãos dadas com alguém do passado E abana a outro alguém do futuro Escrevo apenas para meu inconsciente Minha escrita é perdida no tempo Alcança todos e não pertence a nenhum Versos anacrônicos que perambulam pelas dimensões Carregam o que senti, sinto e sentirei Vagam randomicamente pelo espaço Cujo destino nem eu mesmo sei Ébrios vagabundos eternamente errantes Que não apressam seus passos desconsertantes Meus rabiscos são impessoais Os sujeitos são anônimos Escondidos por detrás da cortina das letras Expurgam um simples sentir Não um ser que se brinca de fingir Mas, sim, também são pessoais Porque dedico a alguém de agora E junto dedico a alguém de outrora Não tentem despir minhas palavras Nem campear um simples significado Só aproveitem este texto desordenado Não talhem um nome e um tempo na poesia Pois mesmo os versos agora dedicados Carregam muitos nomes futuros Carregam muitos nomes passados

PEGADAS DE CARMIM Que comiseração e aflição me atormentam Daqueles que só andam calçados
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PEGADAS DE CARMIM Que comiseração e aflição me atormentam Daqueles que só andam calçados Que não arriscam seu pé nu ao chão Que desaprenderam a sentir E andam apenas bardados Prefiro sentir a grama fresca sob os pés A terra úmida os envolvendo O seco asfalto em brasa E as agulhadas das pedras pontiagudas Mesmo que venha a dor Pois ela faz lembrar que sinto o mundo E que não sou apenas um transeunte anestesiado Não me importo em os pés cortar Não me importo em me ferir Não me importo em sangrar Só me importaria em nada sentir Só me importaria em perder os simples prazeres Para escapar às inevitáveis máculas da estrada Por isso ando… Descalço e despreocupado Deixando minhas pegadas de cor escarlate Que ficam no passado

AROMAS TEIMOSOS Que estranho receptáculo aromático tenho nas mãos Um pequeno frasco de intrigante fragrância que teima em se fechar
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AROMAS TEIMOSOS Que estranho receptáculo aromático tenho nas mãos Um pequeno frasco de intrigante fragrância que teima em se fechar Quando penso que seu cheiro vou sentir Sua tampa encerra-se na mais firme teimosia Ah! Mas que vontade de partir Nas mãos tenho outras fragrâncias As roupas guardam a lembrança de outros perfumes Alguns fortes e hipnotizantes De vidros que nem lembro onde deixei Mas destes aromas não quero os ácidos que irritam o olfato Tampouco os fortes doces enjoativos que me causam asco Prefiro aquele estranho e teimoso frasco Cuja tênue essência beira um efêmero eflúvio de recato Este frasco é manhoso Afrouxa sua tampa quando penso em desistir E a fecha com força ao me ver tentar abrir Mas como gosta de brincar! E agora deve estar a sorrir! Ou está a chorar? Porque apenas não me deixa sua essência cheirar? Mas tenho medo de cansar, de tanto teimar Um dia essa fragrância não mais me interessar De seu cheiro não resistir aos ventos do tempo E com o ar se dissipar

DÚVIDA AMIGA Incógnitas, variáveis, incertezas, hesitações… Infinitas possibilidades e interrogações que surgem de uma vez só
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DÚVIDA AMIGA Incógnitas, variáveis, incertezas, hesitações… Infinitas possibilidades e interrogações que surgem de uma vez só Confundindo o espírito fraco pelas situações, pelo tempo Confundindo a mente inebriada pelo caos do momento Interrogações que assolam desde o mais pobre espírito insensato Até aos espectros minguantes pelos víveres abstratos Sim! Interrogações! Como as prefiro às frias e tediosas respostas e certezas de tudo Que arremedo de projeto vivo seríamos com todas as respostas? Se soubéssemos o nosso rumo, O nosso destino? Ah, mas que desagradável seria burlar todas as caóticas variáveis da vida Não sentir o frio na barriga do salto incerto Não se perder nos caminhos tortos e sombrios Não ousar no deliciosamente e arriscado e incerto Não fazendo aquilo que o âmago manda e que a mente desaprova Não sonhar com o impossível Não, não quero certezas no meu caminho Não, não quero respostas despejadas em minha face, que me impeçam de sentir o interessante gosto de arriscar, De sonhar… Não quero os pés no chão a todo momento Visto minhas asas quando quero Não quero traçar um rumo certo Prefiro aquele rumo cheio de incertezas Um caminho estranho e misterioso Que me encanta em seus segredos Seus mistérios Prefiro abraçar a dúvida Mas a abraço com cuidado Gosto que esteja por perto Me fazendo suspeitar do mundo Mas que fique em outra sala, longe do medo Que estes não se encontrem Não se conheçam Se o medo e a dúvida se amigarem Nos porão grilhões Farão perder com o medo de arriscar Perder mais que o pulo em falso Farão pensar na tristeza e decepção Não temam a dúvida! Abracem-na! Vivam-na! Sintam sem medo o júbilo do caos e incerteza do cosmos Duvidar do mundo Da existência Do futuro Do ser e do estar Estar incerto Confuso Duvidar O que é isso senão o mais simples e belo ato de viver… De sonhar?