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Frase de Roberto Eduardo da Costa Macedo

A CRIANÇA A música de um rádio esvai-se da taberna, espalha-se na rua estreita e mal calçada; é compasso, talvez, de uma dança moderna, talvez ária de amor, febril, apaixonada. Com dois anos ou três, vestida cor de rosa, de bracinhos ao ar, uma menina dança, tão linda, tão gentil, tão pura, tão graciosa, que toda a gente pára a mirar-se na criança. O seu corpo volteia, os seus braços são asas, seus pequeninos pés estão pisando flores, em roda surge, em vez das mais humildes casas, parede palaciana embriagante de cores. Esta criança transforma a pobreza em riqueza, adoça alegremente aquele ambiente triste, o que é sórdido morre ante a sua pureza, só ela, ela somente, ali impera e existe. Ao som daquele rádio, a criança ingénua e calma, dançando, nos conduz ao sobrenatural, a ser apenas sonho, a ser apenas alma, a viver para além de este mundo mortal. Já não se escuta a rádio, a música é divina; a taberna sumiu-se, há um portal do Céu; é um Anjo-de-Deus a forma menina; da sideral mansão, até ali, desceu. Porto, Estio de 1959

Roberto Eduardo da Costa Macedo

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Pensador.com

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O MEU VARINO Ao Dr. Francisco Ferreira Neves Gabão, varino de Aveiro, quase sexagenário, tem sido meu companheiro, com vigor extraordinário; O alfaiate Gafanha, autor do risco e do corte, deu-lhe rigeza tamanha que tarde verá a morte; Estaria como novo, se não surgisse a desgraça, o descuido, que reprovo, de defendê-lo da traça; Acalenta tronco e pernas, é completo agasalho; tem o ar das coisas eternas, no inverno de ele me valho; Protege cabeça e rosto, a ser cantado tem jus, a ser em relevo posto, seu altaneiro capuz. Que boa fazenda aquela, já se não vê no mercado! Não entrava a chuva nela, nem o vento mais danado! Ficou por onze mil réis, nos tempos que já lá vão, em que eram outras as leis, o meu valente gabão. «Precisa o senhor Roberto» disse o Diretor, com tino, para meu Pai, e deu certo, «de abrigar-se num varino». Ele deu esta sentença justa e mui sensatamente, porque de séria doença me achava convalescente. Agora está interdito vir à rua em tal farpela, pois o automóvel maldito quer pressa, tudo atropela. Mas em casa, no sossego que não tem tal desatino, me agasalho, me aconchego, me envolvo no meu varino. Gabão, varino de Aveiro, é trajo tradicional e português verdadeiro, mas do antigo Portugal. Meu gabão dos tempos idos, dos tempos de colegial, estamos envelhecidos, fora da moda, afinal! Porto, Portugal, Maio de 1963

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O CLAMOR D'OS SEM TRABALHO As fábricas encerradas, Fechadas as oficinas; Só estão escancaradas As mil bocas pequeninas, As mil bocas adoráveis, Dos filhos dos miseráveis! É o trabalho um dever A que o Homem foi sujeito? Nós julgamo-lo um direito. Qual será maior pesar: Pedir pão e não o ter, Ou não ter onde o ganhar?

O MEU PAÍS Quero país Flor-de-lis;
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O MEU PAÍS Quero país Flor-de-lis; Democracia De fidalguia; Povo lavado E penteado; Cidadão Cristão, Homem irmão, Filho de Deus, Anjo dos céus; Habitação, Um coração, Conchego e amor; Embalo e flor; Piso Liso; Rua de luz, Que conduz, Aos largos da Saúde, Da Força e da Vitude, Cidade, Mocidade; Grandeza De Beleza E movimento Sem tormento; União, Ação Coordenação; A apologia Da harmonia; Tudo a girar No seu lugar. Vieira do Minho, 1937

POLÍTICOS O ladino do polvo toma a cor Da pedra, areia, ou lodo, em que se deita,
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POLÍTICOS O ladino do polvo toma a cor Da pedra, areia, ou lodo, em que se deita, A fim de conseguir, assim, melhor Caçar a presa que escondido espreita. Quando ela passa, longe da suspeita, Esperto, como um tímido traidor, Na água negro líquido ele deita Que cega a presa e esconde o caçador. Políticos também em Portugal Há que MUDAM DE COR perfeitamente, Sem quase meio mundo dar por tal. Mas, quem tem uma vista regular Está a vê-los por aí continuamente De olhar attento à CATA DE UM LUGAR. Coimbra, 20-02-1908