Frase de Juliana Umbelino
há dias em que me pego funcionando por inércia. a xícara está ali. a tarefa está feita. mas o gesto vem de um lugar que já não sou eu. é como se a vontade tivesse se mudado. e eu tivesse ficado por cortesia. • não é depressão. não é sobre tristeza. é sobre ser uma coisa que já não reconhece a si mesma mas que continua presente por educação. por contrato. por automático. por sobrevivência burra. • há algo em mim que anda descolado. um passo depois. um olhar ao lado. uma presença que continua comigo mas não me habita. parece alma ~ mas é só o que sobrou de tanto tentar se manter inteira. • você me vê. mas não está olhando pra mim. está olhando pra essa versão que aprendeu a sorrir sem querer ficar. essa que responde rápido, usa o tom certo, não deixa ninguém perceber que já foi embora há dias. • pareço viva. mas estou só ocupando a ausência pra não preocupar ninguém. é isso: tem dias em que me torno substituta de mim. • não sei quando começou. mas hoje é sexta, e eu deveria sentir alguma coisa. qualquer coisa. exceto esse vazio que já se veste antes de mim, que já me senta na cadeira, que já me entrega inteira pra um mundo que só sabe lidar com quem funciona. • ninguém nota. porque continuo dizendo “obrigada”. continuo abrindo a porta. continuo assinando o nome com letra legível. mas o que há aqui não sou eu. é o fantasma de alguém que cansou de tentar se habitar. — Juliana Umbelino #SextaFeira #Leitura #VidaDeEscritora
No pensador.ai desde