Frase de Naeno Rocha
PRESO Como eu poderia ter-me em minha boca Para o beijo e para o verbo, Se o sabor de tudo isso sentido Continua a ser detrás, Daquele tempo que não se parte. E para atender estes teus olhos Cor da clara noite, lanternas acesas. Como posso? Dos meus olhos Deixei lá atrás nas encostas de orvalho No vidro límpido que debaixo dele Viajam peixinhos graçapés Que por minhas mãos nunca consegui prender. Um só sequer. Apenas um para tê-lo em casa Já numa arca de embalagem Transparente pressenti-lo de perto Em carícias por ele pelo lado de fora. A minha boca ficou no desejo da manga rosa Dos cajus no seu tempo, onde experimento Qual o mais doce ou qual o mais acre. Salvo meu beijo, que não o dei, Na forma de toda a ansiedade Na menininha irrequieta e tímida Por minha vontade que não se expressava. E até o beijo da minha boca Ficou solidificado, nos lastros das árvores. Nas mãos dos meus pais, dos meus avós E de meus padrinhos, na santa devoção De estar beijando também outro pai. De onde tirarei de mim para te ofertar Por este amor sentindo em mim E que há em mim somado Ao que deixei do que eu era todo Retidos no azedume das frutas ruins De ternuras que foram desta maneira Tocados pelos meus olhos, Entretidos nos corpos de seda Das afeições, caminhos, não resolvidas Mas que em mim, detidos Repassam a mim as fragrâncias e o desejo Que preteri, em vez de fazê-lo. Pegar minha baladeira e sair Depois de uma chuva de inverno.
No pensador.ai desde