Frase de Henrique Evaristo
O Hóspede das sombras Desperta em mim um timbre industrial, Gosto de ferro, nota aguda e fria, Uma versão de traço não causal Que ignora o sol e a própria luz do dia. Tem o olhar cruzado, o norte em desatino, Sabores amargos que a alma não traduz, Habita o fosso, o avesso do destino, E foge sempre que o afeto faz seu fluxo de luz. À margem de tudo o que tento cultivar, Ele se nutre do que eu quis esconder. Sorri com o mal, sem medo de errar, Pois não tem outro centro além do próprio ser. Não guarda o peso da dor alheia no peito, Não carrega a afeição, o laço ou o dever. É gelo puro, instinto, um vácuo perfeito, Um espelho cego que só quer se ver. Eu sei, com clareza, que esse não sou eu, Mas no cansaço de ser quem o mundo quer, Invejo esse monstro que o abismo deu: O lado de dentro que faz o que bem entender.
No pensador.ai desde