Frase de Iago Aloisio
My Devil Talk's Hoje encarei, frente a frente, aquilo que um dia me chamou de futuro. Ele chegou antes de mim. Inteiro. Limpo. Insubmisso. O café entre nós não era bebida — era intervalo, era a distância exata entre quem eu fui e o que restou de mim. Acendi um cigarro. Ele não suportou. Não o cheiro — mas o símbolo. Disse que eu havia aprendido a conviver com aquilo que antes me destruiria. Que eu transformei renúncia em hábito e cansaço em identidade. Meus silêncios — segundo ele — não eram profundos. Eram covardes. Minhas palavras, repetições de um homem que já se traiu tantas vezes que começou a chamar isso de adaptação. Ele não tinha pressa de chegar. Tinha urgência de não se tornar eu. E isso… isso foi o que mais doeu. Porque ali, diante de mim, não estava alguém que me admirava — mas alguém que me reconhecia e recusava. Olhou minha vida como se fosse um território negociado, cada princípio vendido em parcelas silenciosas. Perguntei, quase implorando sem voz: — você volta? Ele sorriu. Não foi gentileza. Foi sentença. O tipo de sorriso de quem ainda não foi quebrado o suficiente para aceitar menos do que é. Pagou o café — como quem encerra um ciclo que eu nunca tive coragem de terminar — e partiu. Sem peso. Sem dúvida. Sem mim. Na mesa, ficaram vestígios: uma coragem que eu abandonei cedo demais, um sonho que eu dobrei para caber no medo, e uma pergunta — crua, implacável, irreversível: — em que momento você decidiu sobreviver em vez de ser? Fiquei. E pela primeira vez, não havia distração possível. Apaguei o cigarro. Mas o que queimava não estava entre meus dedos. E então compreendi — o silêncio não veio me consolar. Veio me julgar.
No pensador.ai desde