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Frase de Alexandru Solomon

Encontro Mal saíra do Hotel Meridien, onde seus amigos paulistas o convidaram para uma caipirinha. Quase uma da tarde. Nada demais, apenas o fato de ele não tomar caipirinha. Mas era uma amizade que vinha de longe, e não seriam algumas doses que iriam separá-los. Deglutira galhardamente três doses com alguns salgados e, após ouvir as indefectíveis piadas cuja validade havia expirado, despediu-se dos casais amigos e decidiu andar um pouco. Colhido pelo bafo quente, olhou para a direita e viu o mar indecentemente azul, que em algum ponto lon¬gínquo engolia um céu de um azul mais claro, apenas manchado de algumas nuvens esparsas de algodão de um branco duvidoso. Andar um pouco pela Avenida Atlântica e olhar as beldades em uniformes de conquista não eram o ideal naquele momento. Tinha dei¬xado trabalho no escritório e, apesar de o celular não reclamar nenhuma atenção, no momento, sabia dis¬por de menos de meia hora antes de enfrentar o mundo além túnel. Além do túnel, acaba a Cidade Maravilhosa, era o seu bordão predileto. As malditas doses haviam tor¬nado seu andar ligeiramente menos decidido que de costume. Na verdade, não sabia como matar a meia hora. Lá longe o Posto Seis e o Forte pareciam chamá-lo. Resistiu ao apelo e, muito a contragosto, decidiu andar um pouco pela Gustavo Sampaio. Um pouco de sombra, já que os prédios projetavam suas silhuetas no asfalto e lá também havia gente, muita gente andando sem muita pressa, com o ar tranquilo e um “xacomigo” zombeteiro estampado no rosto. Relembrou a sessão de piadas. Achava que deveria haver algum dispositivo legal, ou pelo menos um acordo, que determinasse prazos além dos quais as anedotas seriam arquivadas e frequentariam somente as páginas das coletâneas ditas humorísticas. Ter de dar risadas ao ouvir pela centésima vez a mesma piada, ou variações sobre o mesmo tema, poderia ser perigoso para a paciência dos ouvintes, ou reverter em agressão física em detrimento de um contador desatualizado. Até que seria uma boa ideia colocar avisos nesse sentido. Ou, então, seguindo o exemplo das churrascarias rodízio, introduzir o cartão de dupla face, a verde autorizando a continuação e a vermelha decretando o final da sessão. Muito compli¬cado. Como fazer no caso de divergência? Decidir por maioria simples. Ou, devido à importância do assun¬to, haveria de ter a concordância de pelo menos dois terços dos ouvintes? Os desempates seriam decididos pelo voto de Minerva do criminoso, isto é, do conta¬dor. E se houvesse daltônicos na platéia? Será que há exame médico para garçons de rodízio, eliminando os daltônicos? Mas, na falta de regulamentação, como resistir à sanha do contador de “causos”? Não dar risada? Interromper? Contar a sua versão? Esses expedientes eram ainda piores. Olhar a paisagem do terraço, sim, e acompanhar a gargalhada dos outros foi a solução encontrada. Providencialmente. A regulamentação ficaria adiada, procrastinada, decidiu com uma risa¬dinha interior. E tem aquela do português que chega em casa... E aquela outra da freira que... Ah, a melhor de todas, acabaram de me contar: o Joãozinho pergunta para a professora... Afinal, era um bom passatempo, com a vantagem de observar fisionomias alegres. As reações eram muitas vezes mais engraçadas que as piadas. Será que eles também conheciam TODAS aquelas anedotas, ou somente algumas? Esbarrou num transeunte, balbuciou uma desculpa qualquer e teve direito a um bem humorado: – Ô meu, olha só, estou na preferencial! O peso pesado já estava se afastando e as ideias voltando a se agrupar depois da desordem causada pelo baque. A ligeira dor de cabeça pedia uma parada numa farmácia. E farmácia era o que não faltava na rua. Entrou e aguardou que a balconista o notasse. Entre ser notado e a pergunta: – O que deseja? se passaram alguns intermináveis segundos. – Duas passagens para Paris em classe executiva. E ante o misto de espanto e divertimento da moça, completou: – Bom, já que não tem, qualquer coisa para a dor de cabeça. Poderia tomar aqui mesmo? Tomou o analgésico, agradeceu e, instantes mais tarde, estava de volta à calçada esburacada. Olhou para o Leme Palace e resolveu voltar cami-nhando pela Atlântica. Evitou o segundo esbarrão da meia hora de folga. Em frações de segundos, os olhares se cruzaram. Era uma beldade, outonal, mas, apreciador de Vivaldi, as quatro estações são arrebatadoras, pensou. O andar sinuoso, os pequenos sulcos rodeando os olhos, carimbos ainda piedosos no passaporte da vida, cabelos cortados Chanel, ombros e decote plena¬mente apresentáveis e não apenas um tributo pago ao calor daquele verão, pernas bonitas, e medidas ten¬dendo à exuberância. O rosto comum, tinha o olhar faiscante a valorizá-lo. Naquele instante, o tempo parou, não o suficiente, porém, para que, da extrema timidez dele, brotasse algo mais inteligente do que um sorriso vagamente encorajador. “Pergunte algo, as horas, o caminho para algum lugar, o nome da rua, qualquer coisa”, rebelou-se dentro dele uma voz indignada por jamais ter sido ouvida no passado. Continuou, como que petrificado, enquanto, sem deixar de olhá-lo, ela passou por ele longe o suficiente para não tocá-lo, e perto o bastante para deixa-lo sentir o perfume discreto que a envolvia. Ele continuou imóvel e virou a cabeça, contemplando a desconhecida, que continuava andando, afastando-se aos poucos. Alguns passos depois, ela virou a cabeça e o olhar, mesmo àquela distância, lançou um convite mudo ou, pelo menos, assim pa-recia. Sem reação, ele a acompanhou com o olhar. Ela deu mais alguns passos e novamente olhou para trás. A voz interior estava se desesperando. Ele mesmo não entendia o porquê da sua imobilidade. A desconhe¬cida estava se afastando cada vez mais, confundia-se no oceano de cabeças e, mesmo assim, pareceu-lhe que lá longe uma cabeça estava se virando uma última vez para trás. Era um adeus. Sentiu que o que se afastava não era uma desconhecida. Era um pedaço de si mesmo, de uma juventude da qual não havia sabido desfrutar e agora lhe acenava de longe, mergulhada num misto de lembranças e saudade.

Alexandru Solomon

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Pensador.com

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Espumas flutuantes É quase meia-noite. Por que o sono tarda? Chegada é a hora, daqui, desta mansarda, Olhar o firmamento, em sombras embebido, E receber das ruas constante alarido. Monótono murmúrio, mais uma vez repita A velha cantilena de um laço de fita, Mas, por ter retomado o verso centenário, Irão meus detratores chamar-me de plagiário? A ânfora sagrada repleta até a borda Entorno com cuidado. O líquido transborda. E afogado em néctar, aos poucos esqueço Aquela dor que um dia virou-me pelo avesso. Perdido na saudade daquela criatura, A mente se rebela, protesta, esconjura. Mas rende-se covarde à sombra que levita, Fantasma do passado com seu laço de fita. Abafam os meus passos espessa alcatifa, Espio Sherezade à frente do califa, Contando o sonho louco de um jovem colegial, Que viu na Messalina a aura de vestal. O tempo foi trazendo a doce acalmia, O sono se aproxima da ânfora vazia, E no mais lindo verso de púrpura escarlate, O caos da amnésia, debalde se debate. Pois outros são os tempos. Mas vejo a figura Menina com seu laço de Vênus imatura, Tu, náiade perversa, eu, um cabuletê. Teu corpo é espuma cobrindo o Tietê.

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Chico Buarque Sempre foi a mais bonita das meninas dessa sala. Não, não é do Chico Buarque, é daquele que vos fala Que, por sua conta e risco, admirava as melenas Da menina encantadora, que não era de Atenas. Para ela declamava os poemas de Neruda, Era um sinal dos tempos, uma “paixonite” aguda. Comentavam toda hora a Geni, a Carolina, Mas um dia, a Roda viva afastou-o da menina. Despedida lacrimosa cheia de “não me abandone”, Procurou diversas vezes conversar por telefone. Inspirado na Maysa ou, ainda, no Jacques Brel, O contato se manteve, só que via Embratel. Com o tempo, declinaram duração, ardor, freqüência E, com o passar da banda, conformou-se com a ausência. Corroída pouco a pouco, desabou a construção. Amanhã foi outro dia, apesar do coração. Muitos anos se passaram, numa festa do colégio, Encontraram-se de novo. Dissipado o sortilégio. Passearam em silêncio pelo pátio da escola, Recordando os bons tempos, quando lhe passava cola. Procurava ver no rosto da senhora corpulenta, Entre rugas, o sorriso, o encanto, a pimenta, Que haviam desertado sem sinal de compaixão. Ocorreu-lhe: “Para ela é a mesma sensação?” Conversaram mais um pouco com colegas de outrora. Nada mais fazia a ponte do “então” e do “agora”. Cabisbaixo, afastou-se sem que ela o notasse. Caminhando, só lembrava a mais linda da sua classe. Por instantes, a lembrança cativava por inteiro Parecia-lhe ouvi-la a cantar Pedro Pedreiro A imagem se turvava , apesar de obsessiva. Era tudo a vingança da maldita roda viva. Relembrava os momentos do passado esquecido E o trauma do encontro com o grande amor perdido. Vítima de uma lembrança que um dia o deixou louco, Prisioneiro de uma frase “partir é morrer um pouco”. Uma farsa do destino, um embuste traiçoeiro O instante revivido não valia o primeiro. Um abraço, um beijo morno e a viu se afastar Uma lágrima a segue , um suspiro: Vai passar. *Do livro ´´Desespero Provisório``, Ed. Edicon