Frase de Maria Gabriela Cardoso, Lua Pinkhasovna
Já não posso ser amanhã Essa gente medrosa, manhosa, maldosa com suas pieguices, autopiedades, pessimismos insuportáveis que diz que tem medo de falar mas, na verdade, não fala porque não sabe Desconfio de quem diz que a vida é ruim e a mastiga como uma goma grudando nas frestas do dente porque tem nojo do sabor a vida exige muito pouco da gente ela só diz: viva! O controle, egoísmo e expectativas que geram dores Essa gente calada, que não dão a cara a tapa morrem de medo de morrer, mas não de não viver empurram os dias com a barriga e depois se perguntam porque não chegaram a lugar algum não percebem suas manobras repetitivas estão sempre em busca do tempo, templo perdido, chorando pecados a outros pecadores que Deus não liga, ele nos fez como queria Gosto de incomodar, desagradar, transgredir podem me difamar o quanto quiserem mas jamais dirão, em um minuto sequer, que menti sobre quem era, só consigo ser eu e ninguém mais, mesmo que mude depois quando lágrimas chegam digo: “e daí?” o segredo não é permanecer em pé é saber cair, sou forte demais para fingir não sentir Você poderia quebrar minhas pernas mas ainda assim eu não me curvaria pois, crio asas pra me levantar poderia atentar contra o meu coração ele não é de ferro, é de carne, molinho sangra, mas uma hora se regenera a minha força está em cada nervo da sensibilidade não espero o tempo melhorar gosto da chuva e a deixo molhar Já tive vergonha do meu nome, “Maria é nome de mulher comum” — diziam pois me dei ao luxo de ser a mulher mais comum que já conheci na vida você me verá em muitos lugares, bares e pares por que sou como todas? Talvez, mas principalmente porque não me limito em momento algum tenho muitas caras, ações, faço tudo e mais um pouco Escrever é meu processo de cura adoeço na mudez tenho necessidade de falar, falar e falar quando não falo, a garganta inflama dizem que é doença do corpo, digo que é doença da alma antes de ser escritora, precisei corrigir minha biografia, pois não havia um livro sequer disposto a conhecer minha história quando me ensinaram o alfabeto vi que tinha o mundo todo nas mãos Já não posso ser amanhã, tenho fome de agora se num minuto resisto, num instante explodo sempre tento e quando encontro a tecla certa bato até quebrar vou comigo até o fim da linha sou muitas, em poucas estou já não lembro mais quem eu era não me cobre pelo ontem sou inconstante, incontrolável e inocente dos personagens que já fui porque jamais me releio, escrevo e jogo fora outros personagens e histórias sempre virão.
Maria Gabriela Cardoso, Lua Pinkhasovna
No pensador.ai desde