Frase de Negreiros
A PELEJA DA ABELHA COM A MOSCA I Num jardim nasceu a peleja, Que o destino foi traçando; Abelha, rainha das flores, Seu trabalho cultivando. Mosca vinha do outro lado, Cada qual seu rumo andando. II Disse a Abelha, muito altiva: — Eu vivo do puro mel, Faço cera, gero vida, Cumpro um nobre e bom papel. Quem visita flor perfumada Nunca perde seu troféu. III Respondeu logo a Mosca, Sem baixar sua cabeça: — Cada ser tem seu caminho, Sua sina e sua peça. Não escolhi meu destino, Nem a vida que me cerca. IV A Abelha retrucou ligeiro: — Gosto bom é o da flor! Quem procura coisa limpa Leva paz, perfume e cor. Quem vive entre imundícies Não conhece o verdadeiro amor. V A Mosca falou sorrindo: — Prazer muda de pessoa; O que é doce para uns, Pra outros não se entoa. Cada qual segue o costume Que a existência lhe abençoa. VI A Abelha fez ferrão, Defendendo seu reinado; A Mosca bateu as asas, Sem mudar de seu traçado. Cada qual julgando a outra, No seu mundo fechado. VII Uma buscava o néctar Nas campinas coloridas; Outra rondava os caminhos Das sobras já esquecidas. Duas formas de viver, Duas rotas tão distintas. VIII Mas o tempo, velho mestre, Ensinou sem humilhar: Nem só flores dão sustento, Nem só lixo há de ficar. Toda vida tem seu ciclo, Seu nascer e seu findar. IX Disse então a Natureza: — Parem já de discutir! Cada qual cumpre um serviço Que não pode se medir. Quem condena a escolha alheia Pouco aprende a refletir. X Abelha produz o mel, Mosca limpa o que apodrece; Uma encanta os jardins, Outra evita o que fenece. Mesmo sendo tão diferentes, Cada qual à vida tece. XI Gosto, hábito e costume Nem sempre são iguais; Cada um faz sua estrada Entre erros e ideais. Não existe um só caminho Para todos os mortais. XII Terminou-se a velha peleja Com lição de igualdade: Quem despreza o semelhante Só cultiva a vaidade. Abelha e Mosca, no fim, São iguais nas diferenças da humanidade.
No pensador.ai desde