Pular para o conteúdo

Frase de Mário Silveira

PRA NÃO MORRER DE SILÊNCIO Escrevo um poema como um cristão confessa-se ao vigário: perdoem-me. Porque não sou demasiadamente bom e tenho medo. Escrevo um poema como quem se trai no espelho - e que se vê aflito - a sentir a fome do mundo no peito. Por que alguém haveria de ler a loucura e o desleixo? Escrevo um poema como quem grita: "Socorro!!! Tem um bicho de baixo da minha cama" e sozinho no meio da noite, apenas tem a insônia para dialogar. Escrevo um poema como voa um pássaro que depois de tanta liberdade canta no ninho sua solidão. Escrevo um poema como um vigia espera a aurora. Escrevo um poema como quem nasce, e de nada pode vir a saber sobre si ou sobre algo na imundice do pátio da vida. Escrevo um poema como quem suicida; e deixa sua angústia a flutuar por sobre o mundo. Escrevo um poema como um velho contempla o pôr-do-sol e se vê entardecendo ciclo após ciclo. Escrevo um poema como uma mãe diz "não tenho fome" e dá ao seu filho o melhor pedaço de carne Escrevo um poema como um bêbado se equilibra como uma noite desce como um livro guarda como um amor cuida como um louco pensa. Escrevo um poema como uma criança diz "eu te amo" quando na verdade nem sabe que diabos é amor. Escrevo um poema como um coração se contrái como o olho enxerga e dorme como uma mão acaricia e bate como um doente vomita seu mal. Escrevo um poema como uma mulher pare uma dádiva ou aborta uma desgraça. Escrevo um poema como um cão descobre seu fim e afastado de seu amado dono, perece triste. E ninguém vê, nem espera, nem sabe. porque quando vê já não é mais útil, porque quando espera já não há mais tempo porque quando sabe já não é mais hora. Apenas escrevo um poema... Uma dor... uma chegança... um começo...

Mário Silveira

No pensador.ai desde

Fonte e informações de autoria

Pensador.com

Abrir fonte original (abre em nova aba)

Outras frases de Mário Silveira

SE EU MORRER AMANHÃ. Se eu morrer amanhã, por favor, não leve-me flores. Você teve uma vida inteira para isso. Também não chore de saudade, não se não tiver me buscado verdadeiramente enquanto podia. Se eu morrer amanhã, peço: não se arrependa de não ter me dito tudo que queria…
Continuar lendo

SE EU MORRER AMANHÃ. Se eu morrer amanhã, por favor, não leve-me flores. Você teve uma vida inteira para isso. Também não chore de saudade, não se não tiver me buscado verdadeiramente enquanto podia. Se eu morrer amanhã, peço: não se arrependa de não ter me dito tudo que queria enquanto meus ouvidos eram algo que não pó. Se eu morrer amanhã - suplico -, não toque minhas mãos frias, não se nunca as tiver sentido quentes. Se eu morrer amanhã não pense em como seria se eu estivesse vivo, pois eu já estive. E passou. Se eu morrer amanhã, por favor, não diga que me ama, nem que "fui" importante. Eu já não ouvirei isso. Chore, apenas se eu lhe tiver sido bom, mas não chore se não tiver sido comigo. Leia algo meu se bater saudade, mas não leia se nunca tiver lido. Veja fotos minhas se isso fizer bem à lembrança, mas não se arrependa de nunca ter pousado junto a mim. Se eu morrer amanhã, não enlute, não se não tiver lutado comigo. Se eu morrer amanhã, não se surpreenda, morte é consequência de estar vivo. Se, por acaso, eu morrer amanhã, não olhe profundo para mim - dormido eternamente -, mas lembre-se do meu derradeiro olhar, do meu sorriso e das coisas (boas ou ruins) que eu fiz, para, por e com você. Se eu morrer amanhã, lhe peço, não me queira ver, não me queira escrever, não me queira despedir... mas só aceite, só respeite a ideia de que serei silêncio profundo, lembranças doídas e pó eterno e entenda que o que fora feito, dito ou vivido estará trancafiado num tempo chamado passado que debruça-se pouco a pouco no esquecimento e que já não flui, não volta, não muda, não vive, não vê.

ALGO SOBRE A SAUDADE Saudade é o que se sente - lá - no escuro quando a última luz se apaga triste.
Continuar lendo

ALGO SOBRE A SAUDADE Saudade é o que se sente - lá - no escuro quando a última luz se apaga triste. Saudade é não ter algo que existe, é sentir n'alma só, um vão murmuro. Saudade é um perder-se só, consigo. Saudade é um ir nu que não vai tudo Porque fica por dentro, fica mudo. Saudade é não ter-te cá, mas comigo. Que sangre o arrebol das tardes findas e jorrem do lembrar lágrimas frias; É sinal de saudade que quer vindas. E cante eu cá saudade, dor, lamento, e cante tu, vontades de regresso, Cantaremos nós, pois, os bons momentos.

NOSSO RÉVEILLON Permita-me lhe escrever, antes que se finde o velho, uns versos meio tortos para um
Continuar lendo

NOSSO RÉVEILLON Permita-me lhe escrever, antes que se finde o velho, uns versos meio tortos para um novo ano. O que terei eu a dizer senão que é tudo tão novo, e que eu te ano e te ano?! Não esqueça, por favor, e não exclua, meu amor, este velho - que tão logo morrerá em champanhes - para dar vida a um novo. (Em branco!) Vamos dar pausa no hoje, e brindar juntos o novo que somos nós. Por que esperar um futuro se ele ainda é nada? O nosso novo tá aqui, na Lua, na calçada. Nosso Réveillon é todo dia, e o branco que a gente veste é por dentro, é nossa festa, nosso circo, nossa alegria. V e m a m o r, n ã o f i q u e n u n c a a s s i m l o n g e . . . colaemmim! Fica comigo e faz tardar para sempre este 'amo' Por que, não minto, é muito. Este amo, amor, é até o todo, Por que te ano para sempre e o nosso sempre é sempre novo!

O POVO O Povo O Povo,
Continuar lendo

O POVO O Povo O Povo, cego, surdo, mudo, nada. Nada aos lás e cás, aos gozos e ais, aos fundos e rasos, aos menos ou mais. O Povo, ópio de si, glória de outrem, mora imerso no Mar. Alheio à praia lotada, perde a festa, o pulo, a luarada. - O resto dança. O Povo nada. Partiram, os Tiranos, o Povo. Deram-lhe anéis quantos fossem os seus braços, e tiraram-lhe a força, (o abraço) Tiraram-lhe à força pro “regaço”. Pobre Povo, dos Pescadores Tiranos da Praia Partido no Talher da jogada: eles tirando muito e o Povo, Tadinho, virando nada. ... Lá, mundo de muitos mudos, Mundo de muitos tudo, mundo de tantos nada. Cá, pobres obras paradas, cofres empobrecidos e uma hierarquia encravada: Eles com todo o tudo, E o povo, contudo, nada.