Frase de Evan do carmo
Quando Deus Se Chamava Lear Disse-se outrora que houve um rei cujo nome não era nome, mas sentença. Chamavam-no Lear — embora esse som não bastasse para contê-lo. Não era homem, nem rei apenas: era a imagem que o mundo fazia de Deus em ruína. Governou por anos uma terra que se curvava ao gesto de sua mão. Mas, como todo soberano que envelhece, quis dividir o poder antes que a terra o dividisse a ele. Três filhas. Três mundos. Pediu amor, mas em voz alta. Pediu afeto, mas diante da corte. Queria ternura, mas com pompa. Queria certeza — o que só os deuses buscam quando estão à beira da dúvida. As duas primeiras disseram o que ele queria ouvir. A terceira, não disse. E foi expulsa. Desde então, Lear vagou por campos de vento e neblina, coroado apenas pela ausência. Aos poucos, descobriu que a coroa que pesava sobre sua fronte não era de ouro — era o silêncio. Chorou pela primeira vez numa noite sem estrelas, onde os trovões respondiam às suas perguntas com risos. Gritou aos céus: “Sou mais pecador ou mais punido?”. O céu não respondeu. Mas ali — no barro, na lama, no desabrigo — nasceu algo que jamais possuíra no trono: visão. Não dos olhos, que já falhavam. Mas da alma. Viu o mendigo e o bobo. Viu o traidor. Viu a filha fiel, que nada dissera porque tudo sentia. Viu o tempo, que não se dobra à vontade dos reis. Viu Deus, talvez — mas hesitante, escondido sob o capuz de um louco. Quando enfim morreu, ninguém soube. Nem sinos dobraram, nem anais registraram o fim do reinado. Mas alguns dizem que, em certos dias de tempestade, uma voz ainda ecoa pelas montanhas: “A arte é o consolo no abismo onde o próprio Deus hesita.” E nesse eco, dizem, está Lear — não mais rei, não mais homem, mas lembrança.
No pensador.ai desde