Frase de Juliana Umbelino
não houve justiça. nem perdão. só o costume de esquecer. a professora faltou hoje. mas ninguém perguntou por quê. disseram que ela "estava estranha" há dias — como se tristeza usasse crachá. a vizinha do oitavo foi despejada. levou um gato. deixou uma planta na portaria. ninguém subiu com ela. ninguém ligou depois. um amigo meu não responde mais. não porque sumiu. mas porque cansou de tentar explicar por que dói mais quando dizem que você precisa seguir em frente como se a frente existisse pra quem ficou soterrado por dentro. falam muito em cura. mas quase sempre é cobrança disfarçada. falam muito em perdão. mas quase sempre é silêncio em cima da dor alheia pra não estragar a estética do discurso. ninguém quer saber o que te quebrou. só querem que você pareça inteiro. a mulher que denunciou foi lembrada como “intensa demais”. o homem que chorou foi tachado de instável. a criança que travou foi chamada de birrenta. não existe justiça quando o critério é o incômodo que você causa. nem perdão quando o outro não acha que errou. e ainda assim, o mundo continua a se cumprimentar nas calçadas. a desejar bom-dia com a voz pastosa de quem não quer escutar resposta. não houve reconciliação. houve esquecimento. que é o nome elegante do abandono. a justiça virou post. o perdão, estética. ninguém quer reparar. só remendar o que aparece. e se você insiste em lembrar, te chamam de ressentida. te pedem leveza, mas nunca te devolvem o que te tiraram. ninguém paga. ninguém volta. ninguém segura a mão da criança que você era quando a dor começou. perdoar virou roteiro. mas ninguém ensina a segurar o corpo quando ele treme só de ouvir o nome. a justiça falha. mas o que mais dói é ver quem sempre se calou sendo cobrado por não reagir bonito. a verdade é que a maioria não quer justiça. quer tranquilidade. e o perdão? só serve se vier com laço e silêncio. hoje, eu vi alguém chorar no vagão do metrô. ninguém olhou. ninguém estendeu palavra. mas todos pensaram: “tomara que fique bem.” como se torcer fosse gesto suficiente. não houve justiça. não houve pedido. não houve volta. mas houve alguém que entendeu que continuar, mesmo sem reparo, tambem é um tipo de resistência. e isso, aqui, é o mais próximo que a gente tem do perdão.
No pensador.ai desde