Frase de Rildson Alves
Prece-pício Estou debruçado sobre a janela em plena madrugada. A fumaça do cigarro são meus olhos que se desintegram ao léu. Minha testa, encostada no gélido aço da grade, me faz estremecer. A noite é fria como os viciados. De vez em quando um carro, um cão... um mendigo. Mas nada se move a não ser minha alma convulsionada. À frente, algo sugere amplidão, mas não passa de precipício. Não preciso das grades. Sou mais perigoso do que qualquer bandido. Sou autodestrutivo e não espero perdão. Não há melhor hora para descobrirmos quem somos. E mesmo assim estou abismado, pois sou uma gárgula dependurada e paralisada nessa construção sem sentido, jorrando dor e desatinos sobre meus inimigos adormecidos. Por que tudo é tão distante? Minhas mãos não alcançam meus próprios desejos. Desejos são fumaça que se acaba com a última tragada vazia num suspiro intoxicado. Os garis correm atrás do caminhão e sou deixado para trás. Mas sou aquele lixo impertinente que se acumula nas horas claras do dia. Apenas dejetos... Desertos. 6 Quero ir embora. Mesmo que seja naquele fétido caminhão. Quero ir, jogado no meio do lixo, como tal; sendo espremido, moído e descartado, para não mais me debruçar sobre a janela nem desesperar na noite úmida desta maldita cidade.
No pensador.ai desde