Frase de Evan do carmo
O Homem dos Sete Instrumentos Chamam-me assim — homem dos sete instrumentos — mas não sabem: não são sete, nem instrumentos. São cicatrizes. São fomes. São vozes que nunca couberam num só corpo. Toco o violão como quem acaricia um amor perdido que ainda respira na madeira. O piano, como quem dialoga com espectros — meus mortos têm teclas. Canto como quem sangra acordes pela garganta. Escrevo como quem rasga o próprio peito à procura de um som que ainda não nasceu. Componho canções, poemas, romances e vertigens. Verso o que não sei nomear. Não sou um, nem sou muitos. Sou aquilo que sobra quando o som se desfaz, quando o aplauso se cala e só resta o eco. Sou o intervalo entre duas notas, a pausa onde mora o abismo, o silêncio que sustenta a beleza. Cada instrumento em mim é um vazio domesticado, uma ausência que aprendi a afinar. Cada palavra, um grito soterrado. Cada acorde, uma oração profana. Sou feito de ecos e assombros, de mãos que buscam o invisível, de olhos que enxergam o que não se mostra. Carrego um palco dentro do peito — feito de memórias e ruínas — onde cada noite, sem que ninguém veja, enceno minha última vez. Se me chamam homem dos sete instrumentos, é porque ainda não perceberam: sou o que resta quando a vida desaprende a dizer, quando o mundo se recolhe e só o humano ainda insiste em cantar.
No pensador.ai desde