Frase de Hércules Vinícius dos Santos Oliveira
Depoimento do abismo Fui lançado — não nasci. Arrancado do seio do Olimpo e cuspido no ventre escuro do submundo. Como Michael, caí. Mas não houve batalha. Não houve glória. Só a queda. Afundei nas águas estagnadas do Aqueronte, onde o tempo não corre, onde a existência apodrece em silêncio. Ali, não se morre — tampouco se vive. Ali, a única sobrevivente é a dor. E mesmo ela, cansa. O amor é uma lembrança malformada. A paz, um conceito sem tradução neste idioma feito de gritos mudos. A esperança... uma piada cruel, contada em ecos por almas vazias. Tentei respirar. Mas as águas negras não são feitas de matéria, são feitas de ausência — ausência de tudo. São a substância daquilo que não deveria ser. E nelas, minha alma se desfaz, lentamente. Não há carne. Não há forma. Não há identidade. O "eu" é um sussurro perdido na margem da consciência. Sou e não sou. E, nesse estado, compreendo o que é a antítese da vida: não a morte, mas a permanência involuntária no não-ser. O sofrimento aqui não grita. Ele murmura, ele sussurra, ele escava. É uma erosão constante da alma, um delírio sem sonho. Sou parte do rio agora. Sou sua densidade, sua ausência de luz. E quanto mais fundo me torno, mais compreendo: O inferno não é fogo. É o esquecimento de si mesmo. É saber que se sente dor, mas não lembrar por quê.
Hércules Vinícius dos Santos Oliveira
No pensador.ai desde