O Eterno Poeta
No princípio era a Palavra
e a Palavra estava junto de Deus,
e a Palavra era Deus.
Por fim, Deus se fez poesia,
exaltando o amor na compaixão
à vida humana.
Ele, o Eterno Poeta,
acendeu a luz,
multiplicou o pão,
carregou a cruz.
E seus versos ecoaram pelo espaço.
Lá, onde os limites do universo
incomodam a inteligência.
Poeta de amor eterno,
dos enamorados, da musa Criação;
inesgotável sublime simplicidade,
dos Homens é salvação.
Chato
Acordei meio chato ontem,
não, talvez eu seja chato também hoje.
Mas, amanhã retomo minha face normal
que normalmente sou durante a semana.
Não que eu escolha bem cedo ser ou não
chato ou extravagantemente normal.
Uma boa noite de sono me abastece.
O chato é acordar cedo e enfrentar o frio
enquanto me vejo atrasado às 6:30 da manhã.
Café da Manhã
Um belo domingo para um café ao ar livre. O céu azul, quase sem nuvens, revela um sol de um horário inadequado para se levantar, entretanto, é domingo!
Com o café ao leite e um grande e redondo pão-de-queijo fui buscar alento sob um enorme abacateiro em frente ao jardim, para alimentar meu desejo poético de viver.
Uma daquelas cenas cômicas que costumam desabar em série a personagens patetas em filmes de categoria B veio abarcar o poeta.
Da árvore, a sua raiz exposta no chão torna-se cadeira. No súbito movimento de sentar-me, percebi um emaranhado de teia de aranha envolta ao rosto. Enquanto desvelava com uma das mãos ocupadas, a teia sem fim, a cadela inquieta espreitava o momento de acercar-me com seu focinho apurado o meu pão-de-queijo.
Prevendo o perigo, com uma das pernas procurei espantar a cachorrinha, sem sucesso. A outra perna, uma formiga, tipo cabeçuda, fez o favor de aplicar uma picada certeira, provocando meu desequilíbrio e consequente desperdício de um pouco de café, escorrido pela perna.
Um quarto de minuto, talvez... Bastara um quarto de minuto para decidir-me pelo retorno a uma cadeira rotineira com minha xícara e pôr fim ao café, inspiravelmente desastroso.
Soneto ao Sacrário
A pequena luz escarlate
a cintilar continuamente
confirma a excelsa verdade
que Deus está presente.
A graça mais perfeita
me encanta o coração
a Majestade Eucarística,
um colóquio em oração.
À minha cela se avizinha
a sublime espécie de Pão.
Na minha casa, este convento
na incruenta doação
como o pai que dá sustento
resta-me amá-Lo. [Conclusão].
Querer-te
Quero-te!
Arde-me a alma por Vós
e, no entanto fraca
é minha vontade.
Bastaria o sim
desposado sem palavras
com todo o tudo de meu ser.
E não mais distâncias
por mais longínquo fosse o caminho.
Ou dolorosa a solidão.
Consumar a minha entrega
em inefável Comunhão.
Peregrino
Eu, peregrino
peregrino pelo caminho
na busca incessante
caminho sozinho.
Cheio de gente,
cheio de Deus.
Ó, cheio de malas,
bagagens.
Nu, peregrino
livre pelo caminho,
irmão universal
do cosmo criação
do Amor, Deus menino.
Criança Interior
Tenho medo da noite
quando me deixas só
e o sol vai se deitar.
Sinto frio quando acordo
procurando por você
e não encontro no olhar.
Quanto afago bastaria
a criança interior?
Ingênuo coração,
carências de homem feito.
Ama-me, te peço.
Te amar,
somente quero.
Setembro
Os fins de setembro em ares de chuva
do Sol a brandura às nuvens escuras,
de um frio noturno um tempo murmura
do aconchego, abraço e ternura.
A canção que me pede trilha sonora
dilata a agonia dos dias afins.
E recuo ao leito, amigo do pranto
silêncio, presença, abrigo-manto.
Setembro de flores primaveris,
dos amores, setembro dos esmorecidos.
Dias curtos, pesadelos vis.
Pleonasmo
- Menino, entra pra dentro agora! Gritou minha mãe dona-do-lar.
Mal entro em casa e a redundância continua:
- Mozin, vô subir lá em cima, quando a janta tiver pronta, cê me chama; palavras do pai.
E nesse ciclo vicioso, só me resta parar inerte a rir meu riso.
Uma Noite na Roça
Contemplando o crepúsculo
que precede as noites na roça,
ao longe, no vasto horizonte
de pasto;
entre grilos e sapos
regendo a canção natural
da maestra natureza.
Uma bica d'água
verte os sons
de suas notas correntes,
límpidas e cristalinas.
E vejo a estrada de chão
quase ofuscada pela noite nascente
na orquestra da noite na roça.
O Outro Bicho
Sem destino certo, caminhava pelas ruas como um cão farejando alimento. Eu estava faminto.
Se batia à porta das pessoas, a hostilidade das donas e seus maridos causava-me medo. Minha presença provocava-lhes repugnância.
Sequer podia transitar nas calçadas frente a restaurantes sem ser vigiado ou humilhado por seguranças. Mendigos prejudicam a reputação do comércio, diziam.
Minha esperança era revirar o lixo nas lixeiras de restaurantes e, quando encontrava algo comestível, lançava-o goela abaixo sem me importar com o cheiro e o gosto desagradável.
Aquela manhã tornei-me objeto de curiosidade de um garoto, provavelmente em seus seis anos de idade. Enquanto investigava o lixo de um restaurante ao lado da escola, pelo pátio, um menino olhava-me fixamente. Estava atônito pelo espanto de perceber um homem sujo e tão magro se misturando ao lixo e dele comendo voraz.
O garoto não dizia palavra alguma. Apenas encarava-me com seus olhos insistentes que, por um momento pareceu-me gritar: “não coma isso. É lixo!” Senti-me envergonhado.
O sinal da escola tocou anunciando o término do recreio.
Lacrimaram meus olhos em ver aquele menino, meu Deus, livre de qualquer preconceito, na inocência de sua vida, com as mãozinhas trêmulas me oferecer da sua lancheira para comer.
Versos em Quatro Estações
Quatro estações testemunharam nosso encontro
o encanto de seus olhos cor de mel.
Meu sentimento era ingênuo e não sabia:
floria amor na primavera de meu céu.
Seu amigo e ser presença ao seu lado,
enamorado, no entanto, eu fiquei
e amei-te à tarde, pela manhã e até a noite
te procurava, era verão aquele instante.
Amantes a sós no outono se aqueciam
e esqueciam as horas frias apressadas,
das semanas o inverno então rugiu
grunhiu o vento em seus cabelos sobre mim.
Assim, findava nossa história repentina:
naquela mesma estação que nos uniu
primavera veio agora traiçoeira
eira do amor, o sentimento fez-se vil.