Num tempo em que o amor se desfaz em fragmentos, como folhas secas sopradas pelo vento indiferente… Num tempo em que os corpos se encontram, mas as almas não se reconhecem, em que o prazer se tornou moeda fria e o desejo, um artifício sem essência…
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Num tempo em que o amor se desfaz em fragmentos, como folhas secas sopradas pelo vento indiferente… Num tempo em que os corpos se encontram, mas as almas não se reconhecem, em que o prazer se tornou moeda fria e o desejo, um artifício sem essência… Ali, no meio do deserto emocional de uma época árida, dois seres foram colhidos pelo sopro misterioso do destino. Ela, mulher já moldada pelo rigor dos estudos e pela solidez das escolhas; ele, homem simples, que caminhava com a esperança nos ombros e a dignidade como única bagagem. E então, como quem não teme o improvável, a vida — com seus dedos invisíveis — conduziu-os ao mesmo instante, ao mesmo espaço. Ele buscava apenas um trabalho. Ela, serena e altiva, conduzia os trâmites das contratações. Mas o que se deu naquele momento fugiu à lógica das funções e papéis. Os olhos dele encontraram os dela — e nesse breve cruzar de olhares, o tempo pareceu deter sua marcha. Um frio, suave e lancinante, percorreu-lhe o ventre; o coração, em súbita rebelião, disparou, como se quisesse anunciar-lhe que havia acabado de adentrar outro universo: um mundo de possibilidades jamais sonhadas, de beleza não prevista, de encantamento silencioso. Ela, com um sorriso que parecia carregar toda a luz ausente daquele mundo tão sombrio, o acolheu com uma delicadeza que não sabia ter. O tempo, então, os envolveu com sua rede sutil: as mensagens foram nascendo, os diálogos se multiplicando, a amizade se firmando como quem finca raízes em solo fértil. Mas, aos poucos, algo mais delicado, mais tênue — e por isso mesmo mais perigoso — começou a despontar. Ele, envolto em desejos calados e vontades que jamais ousara confessar, percebeu-se enamorado. Ela… ah, ela, embora casada, embora presa aos laços que o tempo e a história haviam tecido, pressentia, em cada palavra trocada, que aquele homem guardava para ela um sentimento que transcendia a amizade. Mas, com a altivez de quem conhece o peso das escolhas, permaneceu firme, limitando-se à candura da amizade e ao respeito que ainda tributava ao casamento, apesar das dificuldades que o atravessavam como ventos insistentes. E assim, ambos permanecem, suspensos… Como folhas que o outono ainda não decidiu deixar cair, como estrelas que se olham de longe, cientes de que, embora se reconheçam no brilho mútuo, jamais poderão colidir sem que o universo se parta em dois. E fica, então, a pergunta que apenas o tempo poderá responder: Será que o mesmo destino que os fez se encontrarem ousará, também, uni-los? Ou será este um amor que deverá permanecer, para sempre, no território do não-dito, do suspenso, do que poderia ter sido, mas não foi? O tempo — este velho escultor de verdades e silêncios — dirá… Pois o amor, quando é verdadeiro, não conhece pressa: ele é paciente como quem sabe que, mesmo no mais árido dos desertos, sempre haverá uma flor a nascer. Um amor assim: belo, intenso… e, quem sabe, perigosamente eterno.