Se a solidão é tão grande é porque o amor foi tão grande.
Frases de Vinicius de Moraes
356 frases
A rosa de hiroxima Pensem nas crianças mudas e telepáticas Pensem nas meninas cegas inexatas Pensem nas mulheres rotas alteradas Pensem nas feridas como rosas cálidas Mais oh não se esqueçam da rosa da rosa da rosa de hiroxima Da rosa hereditária Da rosa radioativa Estupida e in…
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A rosa de hiroxima Pensem nas crianças mudas e telepáticas Pensem nas meninas cegas inexatas Pensem nas mulheres rotas alteradas Pensem nas feridas como rosas cálidas Mais oh não se esqueçam da rosa da rosa da rosa de hiroxima Da rosa hereditária Da rosa radioativa Estupida e inválida A anti rosa atomica Sem cor sem perfume Sem rosa sem nada
Com um gesto fulgurante o Arcanjo Gabriel Abre de par em par o pórtico do poente Sobre New York. A gigantesca espada de ouro
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Com um gesto fulgurante o Arcanjo Gabriel Abre de par em par o pórtico do poente Sobre New York. A gigantesca espada de ouro A faiscar simetria, ei-lo que monta guarda A Heavens, Incorporations. Do crepúsculo Baixam serenamente as pontes levadiças De U.S.A. Sun até a ilha da Manhattan. Agora é tudo anúncio, irradiação, promessa Da Divina Presença. No imo da matéria Os átomos aquietam-se e cria-se o vazio Em cada coração de bicho, coisa e gente. E o silêncio se deixa assim, profundamente... Mas súbito sobe do abismo um som crestado De saxofone, e logo a atroz polifonia De cordas e metais, síncopas, arreganhos De jazz negro, vindos de Fifty Second Street. New York acorda para a noite. Oito milhões De solitários se dissolvem pelas ruas Sem manhã. New York entrega-se. Do páramo Balizas celestiais põem-se a brotar, vibrantes À frente da parada, enquanto anjos em nylon As asas de alumínio, as coxas palpitantes Fluem langues da Grande Porta diamantina. Cai o câmbio da tarde. O Sublime Arquiteto Satisfeito, do céu admira sua obra. A maquete genial reflete em cada vidro O olho meigo de Deus a dardejar ternuras. Como é bela New York! Aço e concreto armado A erguer sempre mais alto eternas estruturas! Deus sorri complacente. New York é muito bela! Apesar do East Side, e da mancha amarela De China Town, e da mancha escura do Harlem New York é muito bela! As primeiras estrelas Afinam na amplidão cantilenas singelas... Mas Deus, que mudou muito, desde que enriqueceu Liga a chave que acende a Broadway e apaga o céu Pois às constelações que no espaço esparziu Prefere hoje os ersätze sobre La Guardia Field Vinícius de Moraes Crepúsculo em New York Rio de Janeiro , 1954
A porta Eu sou feita de madeira Madeira, matéria morta
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A porta Eu sou feita de madeira Madeira, matéria morta Mas não há coisa no mundo Mais viva do que uma porta. Eu abro devagarinho Pra passar o menininho Eu abro bem com cuidado Pra passar o namorado Eu abro bem prazenteira Pra passar a cozinheira Eu abro de supetão Pra passar o capitão. Só não abro pra essa gente Que diz (a mim bem me importa...) Que se uma pessoa é burra É burra como uma porta. Eu sou muito inteligente! Eu fecho a frente da casa Fecho a frente do quartel Fecho tudo nesse mundo Só vivo aberta no céu!
Para se fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza.
Alba Alba, no canteiro dos lírios estão caídas as pétalas de uma rosa cor de sangue Que tristeza esta vida, minha amiga…
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Alba Alba, no canteiro dos lírios estão caídas as pétalas de uma rosa cor de sangue Que tristeza esta vida, minha amiga… Lembras-te quando vínhamos na tarde roxa e eles jaziam puros E houve um grande amor no nosso coração pela morte distante? Ontem, Alba, sofri porque vi subitamente a nódoa rubra entre a carne pálida ferida Eu vinha passando tão calmo, Alba, tão longe da angústia, tão suavizado Quando a visão daquela flor gloriosa matando a serenidade dos lírios entrou em mim E eu senti correr em meu corpo palpitações desordenadas de luxúria. Eu sofri, minha amiga, porque aquela rosa me trouxe a lembrança do teu sexo que eu não via Sob a lívida pureza da tua pele aveludada e calma Eu sofri porque de repente senti o vento e vi que estava nu e ardente E porque era teu corpo dormindo que existia diante de meus olhos. Como poderias me perdoar, minha amiga, se soubesses que me aproximei da flor como um perdido E a tive desfolhada entre minhas mãos nervosas e senti escorrer de mim o sêmen da minha volúpia? Ela está lá, Alba, sobre o canteiro dos lírios, desfeita e cor de sangue Que destino nas coisas, minha amiga! Lembras-te, quando eram só os lírios altos e puros? Hoje eles continuam misteriosamente vivendo, altos e trêmulos Mas a pureza fugiu dos lírios como o último suspiro dos moribundos Ficaram apenas as pétalas da rosa, vivas e rubras como a tua lembrança Ficou o vento que soprou nas minhas faces e a terra que eu segurei nas minhas mãos. Rio de Janeiro, 1935
FEIJOADA À MINHA MODA Amiga Helena Sangirardi Conforme um dia eu prometi
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FEIJOADA À MINHA MODA Amiga Helena Sangirardi Conforme um dia eu prometi Onde, confesso que esqueci E embora - perdoe - tão tarde (Melhor do que nunca!) este poeta Segundo manda a boa ética Envia-lhe a receita (poética) De sua feijoada completa. Em atenção ao adiantado Da hora em que abrimos o olho O feijão deve, já catado Nos esperar, feliz, de molho. E a cozinheira, por respeito À nossa mestria na arte Já deve ter tacado peito E preparado e posto à parte Os elementos componentes De um saboroso refogado Tais: cebolas, tomates, dentes De alho - e o que mais for azado Tudo picado desde cedo De feição a sempre evitar Qualquer contato mais... vulgar Às nossas nobres mãos de aedo Enquanto nós, a dar uns toques No que não nos seja a contento Vigiaremos o cozimento Tomando o nosso uísque on the rocks. Uma vez cozido o feijão (Umas quatro horas, fogo médio) Nós, bocejando o nosso tédio Nos chegaremos ao fogão E em elegante curvatura: Um pé adiante e o braço às costas Provaremos a rica negrura Por onde devem boiar postas De carne-seca suculenta Gordos paios, nédio toucinho (Nunca orelhas de bacorinho Que a tornam em excesso opulenta!) E - atenção! - segredo modesto Mas meu, no tocante à feijoada: Uma língua fresca pelada Posta a cozer com todo o resto. Feito o quê, retire-se caroço Bastante, que bem amassado Junta-se ao belo refogado De modo a ter-se um molho grosso Que vai de volta ao caldeirão No qual o poeta, em bom agouro Deve esparzir folhas de louro Com um gesto clássico e pagão. Inútil dizer que, entrementes Em chama à parte desta liça Devem fritar, todas contentes Lindas rodelas de lingüiça Enquanto ao lado, em fogo brando Desmilingüindo-se de gozo Deve também se estar fritando O torresminho delicioso Em cuja gordura, de resto (Melhor gordura nunca houve!) Deve depois frigir a couve Picada, em fogo alegre e presto. Uma farofa? - tem seus dias... Porém que seja na manteiga! A laranja gelada, em fatias (Seleta ou da Bahia) - e chega. Só na última cozedura Para levar à mesa, deixa-se Cair um pouco da gordura Da lingüiça na iguaria - e mexa-se. Que prazer mais um corpo pede Após comido um tal feijão? - Evidentemente uma rede E um gato para passar a mão... Dever cumprido. Nunca é vã A palavra de um poeta... - jamais! Abraça-a, em Brillat-Savarin O seu Vinicius de Moraes.
Sempre que o sol Pinta de anil Todo o céu
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Sempre que o sol Pinta de anil Todo o céu O girassol Fica um gentil Carrossel. O girassol é o carrossel das abelhas. Pretas e vermelhas Ali ficam elas Brincando, fedelhas Nas pétalas amarelas. – Vamos brincar de carrossel, pessoal? – “Roda, roda, carrossel Roda, roda, rodador Vai rodando, dando mel Vai rodando, dando flor.” – Marimbondo não pode ir que é bicho mau! – Besouro é muito pesado! – Borboleta tem que fingir de borboleta na entrada! – Dona Cigarra fica tocando seu realejo! – “Roda, roda, carrossel Gira, gira, girassol Redondinho como o céu Marelinho como o sol.” E o girassol vai girando dia afora... O girassol é o carrossel das abelhas.
E o olhar estaria ansioso esperando
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
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Que ela não perca nunca, não importa em que mundo Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre O impossível perfume; e destile sempre O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
E por falar em paixão Em razão de viver Você bem que podia me aparecer
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E por falar em paixão Em razão de viver Você bem que podia me aparecer Nesses mesmos lugares Na noite, nos bares, Onde anda você?
A maior solidão é do ser que não ama.
Namorados no mirante Eles eram mais antigos que o silêncio A perscrutar-se intimamente os sonhos
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Namorados no mirante Eles eram mais antigos que o silêncio A perscrutar-se intimamente os sonhos Tal como duas súbitas estátuas Em que apenas o olhar restasse humano. Qualquer toque, por certo, desfaria Os seus corpos sem tempo em pura cinza. Remontavam às origens – a realidade Neles se fez, de substância, imagem. Dela a face era fria, a que o desejo Como um hictus, houvesse adormecido Dele apenas restava o eterno grito Da espécie – tudo mais tinha morrido. Caíam lentamente na voragem Como duas estrelas que gravitam Juntas para, depois, num grande abraço Rolarem pelo espaço e se perderem Transformadas no magma incandescente Que milênios mais tarde explode em amor E da matéria reproduz o tempo Nas galáxias da vida no infinito. Eles eram mais antigos que o silêncio...
Não teve flores Não teve velas Não teve missa
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Não teve flores Não teve velas Não teve missa Caixão também... Foi enterrado Junto à maré Por operários Mesmos do trem... A flor de orvalho Pendeu da nuvem E pelo chão Despetalou... O céu ergueu A hóstia do sol E o mar em ondas Se ajoelhou... Cortejo lindo Maior não houve Do que o da morte Desse amiguinho: Iam vestidas Com a lã das nuvens Todas as almas Dos carneirinhos! Os gaturamos Trinaram hinos No altar esplêndido Da madrugada; E o vento brando Desfeito em rimas Foi badalando Pelas estradas!
Quando a vida enfim me quiser levar Pelo tanto que me deu Sentir-lhe a barba me roçar
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Quando a vida enfim me quiser levar Pelo tanto que me deu Sentir-lhe a barba me roçar No derradeiro beijo seu E ao sentir também sua mão vedar Meu olhar dos olhos seus Ouvir-lhe a voz a me embalar Num acalanto de adeus Dorme, meu pai sem cuidado Dorme, que ao entardecer Teu filho sonha acordado Com o filho que ele quer ter.
Corujinha, corujinha Que peninha de você Fica toda encolhidinha
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Corujinha, corujinha Que peninha de você Fica toda encolhidinha Sempre olhando, não sei o quê. O seu canto de repente Faz a gente estremecer corujinha, pobrezinha Todo mundo que te vê Diz assim, ah! coitadinha Que feinha que é você. Quando a noite vem chegando Chega o teu amanhecer E se o sol vem despontando Vais voando te esconder. Hoje em dia andas vaidosa Orgulhosa como quê Toda noite tua carinha Aparece na TV. Corujinha coitadinha Que feinha que é você!
As coisas devem ser bem grandes Pra formiga pequenininha A rosa, um lindo palácio
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As coisas devem ser bem grandes Pra formiga pequenininha A rosa, um lindo palácio E o espinho, uma espada fina. A gota d'água, um manso lago O pingo de chuva, um mar Onde um pauzinho boiando É navio a navegar. O bico de pão, o Corcovado O grilo, um rinoceronte Uns grãos de sal derramados, Ovelhinhas pelo monte.
Passa, tempo, tic-tac Tic-tac, passa, hora Chega logo, tic-tac
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Passa, tempo, tic-tac Tic-tac, passa, hora Chega logo, tic-tac Tic-tac, e vai-te embora Passa, tempo Bem depressa Não atrasa Não demora Que já estou Muito cansado Já perdi Toda a alegria De fazer Meu tic-tac Dia e noite Noite e dia Tic-tac Tic-tac Tic-tac...
Os maiores vêm a frente trazendo a cabeça erguida E os fracos, humildemente
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Os maiores vêm a frente trazendo a cabeça erguida E os fracos, humildemente Vêm atrás, como na vida.
Menininha do meu coração Eu só quero você A três palmos do chão
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Menininha do meu coração Eu só quero você A três palmos do chão Menininha não cresça mais não Fique pequenininha na minha canção Senhorinha levada Batendo palminha Fingindo assustada Do bicho-papão. Menininha, que graça é você Uma coisinha assim Começando a viver Fique assim, meu amor Sem crescer Porque o mundo é ruim, é ruim e você Vai sofrer de repente Uma desilusão Porque a vida é somente Teu bicho-papão. Fique assim, fique assim Sempre assim E se lembre de mim Pelas coisas que eu dei Também não se esqueça de mim Quando você souber enfim De tudo o que eu amei.