Saudade
Saudade, uma palavra abstrata
no sentir uma dor imensamente concreta,
mas tão abstrata no definir.
É indefinidamente concreto o vazio
que sufoca o peito e afeta a alma.
Saudade é uma adaga que golpeia cortes profundos.
É uma chaga aguda que chega a queimar
como fogo em chamas arder.
Saudade é suspirar, é gemer,
é querer, é temer, é sofrer. É frenesi.
Chega sem ser convidada, apodera-se
do coração e da mente, ilimitadamente.
Saudade é percorrer uma estrada vazia
antes já conhecida de alguém,
sem encontrar o elo perdido na vida.
É chorar a ausência de alguém.
Saudade é uma dor silenciosa,
a dor mais profunda que há,
pois dói sem mostrar a ferida
que amarga escondida dentro do peito
deixando a carcaça à vista, erguida.
Saudade é tudo e é nada.
Saudade é amargar a ausência
de alguém a quem se quer tanto bem.
Umbelina Marçal Gadelha
Inquietação
Eu não sei de onde vem
tanta energia,
tanta inquietação.
A vida agitada te apraz.
O perigo te satisfaz.
Não consigo entender
o que tanto te tortura?
Se há noite, haverá dia
Se a noite é escura e fria,
o calor aquecerá à luz do dia.
Se há choro, haverá alegria.
São as variantes da vida
Que fazem magia.
O brilho no teu olhar evidencia
a intensa chama, o frescor,
a abundante seiva, a flama,
a insensatez da juventude
que explode e expande-se
dentro de ti e te suplicia
em várias nuanças.
Umbelina Marçal Gadelha
Anseio
Sabe o que eu anseio agora?
Encontrar alguém
Que não me diga nada
Não me pergunte nada também
Alguém que me ofereça colo
Para eu verter todo o desencanto.
Sabe o que eu mais desejo agora?
Esconder-me de mim no interior
Do meu universo particular
Para se eu quiser chorar
Chorar até me cansar
Ou quem sabe eu possa
Simplesmente divagar.
Umbelina Marçal Gadêlha
Alma terna flutuante
Abnegadamente eu mergulhei
plena de convicções,
às profundezas da minha alma
para mostrar as minhas cristalinas emoções.
Eu me rendi candidamente, despi o âmago,
o mais profundo do meu ser, e revelei
a minha alma original de forma integral.
Intrepidamente fui mais além e desnudei-me
do meu intelecto e mostrei avesso do avesso.
E após despir meu adverso, foram-se os mistérios.
Desfez-se o encanto e não me consenti verter
nenhum pranto para o meu próprio espanto.
Umbelina Marçal Gadêlha
Canto do silêncio
Quando percebi em teus olhos
a tua cruel indiferença,
meu coração soluçou.
Balbuciou gemido de intensa dor
e a amargura me dominou.
Fraquejei diante da tua frieza,
do teu silêncio, da tua crueza,
da tua indiferença, da tua ferocidade,
do teu desamor, da tua maldade
do teu infindável torpor.
.
Senti o medo abrigando-se
em meu íntimo e naveguei
por mares escurecidos
mergulhada na aflição da incerteza.
Tantas perguntas sem respostas!
Por que finges que me ouves
Se não me escutas?
Por que me olhas
se não me vês?
Por que silencias
quando devias falar?
Umbelina Marçal Gadêlha
Achismo
Achei, em plena adolescência,
que vivia a maturidade integral!
Achei que adolescente eu sempre seria.
Achei que a idade jamais chegaria,
e, se chegasse, não me afetaria.
Achei que nunca me apaixonaria!
Achei que ninguém, jamais me enganaria,
e, se o fizesse, eu morreria...
Achei que, se fosse traída, o traidor eu mataria,
ou pagar-lhe-ia na mesma moeda.
Achei que a autoconfiança não mais recuperaria.
Achei que o amor não se transformaria.
Achei que professora eu não seria.
Achei que louca não seria em escrever poesia!
Achei que havia encontrado as respostas certas.
Achei que a vida não mais me surpreenderia.
Achei que não deveria ter achado tanto.
Acho agora que achei demais,
mas continuo a procurar
o que ainda não achei
Umbelina Marçal Gadêlha
Canto da dor
Quando a dor é muita
o medo desaparece,
e o caminho que se mostra
diante do perigo, o abismo,
passa-nos despercebido.
Quando a dor é muita
sufoca por dentro e por fora,
e o sentimento que banha o âmago
é uma amarga desesperança.
Quando a dor é muita,
a música mais ouvida é um soluço
não reprimido, é um gemido aflito
gritando forte no coração ferido.
Quando a dor é muita,
sangra o coração
e o espírito aflito
se angustia.
Quando a dor é muita
aniquila a alma enferma,
anula a razão e a fantasia,
ceifa a essência da vida.
Umbelina Marçal Gadêlha
Abandona-te em mim
Abandona-te em mim ousadamente
e me confidencies os segredos ocultos
que ocupam a tua mente.
Rasga as tuas fantasias, os teus desejos,
os teus sonhos impudicos, mais atrevidos,
de palmilhar as minhas curvas sedutoras,
de contornar a minha exibida geografia.
Preenche-me todos os hiatos,
envolve-me em teus braços.
Que eu seja só tua, e que sejas só meu.
Lambuza-te na doce ternura
de irrestritos afagos e afetos.
E para sempre dentro de ti
me conserves vivendo para ti,
e que para sempre vivas para mim.
Umbelina Marçal Gadêlha
Siga em frente
Ame-se o suficiente para seguir em frente
quando te deixarem para trás.
Se ninguém não quiser te acompanhar siga sozinho,
E no caminho encontrarás alguém que pense igual a ti.