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Frases de Terry Eagleton

21 frases

Marx acreditava que a ética que governa a sociedade capitalista — a ideia de que só poderei servir a você se isso for lucrativo para mim — era uma forma detestável de vida. Não trataríamos nossos amigos ou filhos assim, então por que aceitar que isso
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Marx acreditava que a ética que governa a sociedade capitalista — a ideia de que só poderei servir a você se isso for lucrativo para mim — era uma forma detestável de vida. Não trataríamos nossos amigos ou filhos assim, então por que aceitar que isso fosse um jeito perfeitamente natural de lidar com outros na seara pública?

Dessa forma, começamos a contar uma história. Começamos a ser uma história. Os animais que não são capazes de desejar, executar tarefas complexas e elaborar formas de comunicação tendem a se repetir. Suas vidas são determinadas por ciclos
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Dessa forma, começamos a contar uma história. Começamos a ser uma história. Os animais que não são capazes de desejar, executar tarefas complexas e elaborar formas de comunicação tendem a se repetir. Suas vidas são determinadas por ciclos naturais. Eles não moldam para si uma narrativa, ou seja, aquilo que Marx considera liberdade. A ironia nessa visão é que, embora essa autodeterminação seja a essência da humanidade, a grande maioria de homens e mulheres ao longo da história foi incapaz de exercitá-la. Esses indivíduos não tiveram permissão para ser plenamente humanos. Em vez disso, suas vidas, na maior parte, foram determinadas pelos monótonos ciclos da sociedade classista. O porquê desse fato e como isso pode ser sanado é a essência da obra de Marx, que investiga como podemos passar do reino da necessidade para o da liberdade, ou seja, nos tornarmos menos semelhantes a texugos e mais semelhantes a nós mesmos. Tendo nos levado aos umbrais de tal liberdade, Marx nos deixa ali, para que nos viremos por conta própria. Como poderia haver liberdade se assim não fosse?

Tendo em vista que o modelo base-superestrutura tem sido bastante ridicularizado por alguns críticos de Marx e até por alguns de seus seguidores, perversamente me disponho a elogiá-lo aqui. Algumas vezes se argumenta que o modelo é estático demais,
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Tendo em vista que o modelo base-superestrutura tem sido bastante ridicularizado por alguns críticos de Marx e até por alguns de seus seguidores, perversamente me disponho a elogiá-lo aqui. Algumas vezes se argumenta que o modelo é estático demais, mas todos os modelos são estáticos, bem como simplificadores. Marx não quer dizer que existem duas porções totalmente distintas de vida social; ao contrário, existe um bocado de tráfego entre ambas. A base pode dar origem à superestrutura, mas a superestrutura é importante para a existência continuada da base. Sem o apoio do Estado, do sistema jurídico, dos partidos políticos e da circulação de ideias pró-capitalistas na mídia e em outros lugares, o atual sistema de propriedade poderia estar mais claudicante do que anda nos últimos tempos. Na visão de Marx, esse tráfego de mão dupla era ainda mais evidente nas sociedades pré-capitalistas, em que o direito, a religião, a política, os laços de sangue e o Estado participavam crucialmente na atividade da produção material.

Ainda assim, ficaríamos pasmos se descobríssemos que a cultura inglesa só continha Tom Paines e trupes teatrais anarquistas. A maioria dos romancistas, acadêmicos, publicitários, jornais,
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Ainda assim, ficaríamos pasmos se descobríssemos que a cultura inglesa só continha Tom Paines e trupes teatrais anarquistas. A maioria dos romancistas, acadêmicos, publicitários, jornais, professores e emissoras de TV não produz obras dramaticamente subversivas do status quo. Isso é tão óbvio que deixa de nos parecer significativo. O argumento de Marx é simplesmente que não se trata de acidente. E é aqui que podemos formular o aspecto mais positivo de sua afirmação. Em termos amplos, a cultura, o direito e a política da sociedade classista estão ligados aos interesses das classes sociais dominantes. Como o próprio Marx observa em A ideologia alemã: “A classe que é a força material governante da sociedade é ao mesmo tempo a força intelectual governante.”

O trabalho humano raramente é do tipo gratificante. Em primeiro lugar, sempre se deu sob coerção, de uma forma ou de outra, ainda que esta seja simplesmente a necessidade de não morrer de fome. Em segundo lugar, ele é executado na sociedade
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O trabalho humano raramente é do tipo gratificante. Em primeiro lugar, sempre se deu sob coerção, de uma forma ou de outra, ainda que esta seja simplesmente a necessidade de não morrer de fome. Em segundo lugar, ele é executado na sociedade classista e por esse motivo não como um fim em si mesmo, mas como meio gerador de poder e lucro para terceiros. Na visão de Marx, e de seu mentor Aristóteles, a boa vida consiste de atividades desempenhadas sem finalidade outra que não elas próprias.

“A economia” jamais aparece na forma bruta. O que a imprensa financeira chama de “a economia” é um tipo de fantasma. Decerto ninguém jamais pôs os olhos nela. Trata-se de uma abstração
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“A economia” jamais aparece na forma bruta. O que a imprensa financeira chama de “a economia” é um tipo de fantasma. Decerto ninguém jamais pôs os olhos nela. Trata-se de uma abstração de um complexo processo social. É o pensamento econômico ortodoxo que habitualmente estreita a noção do fator econômico. O marxismo, ao contrário, concebe a produção na forma mais rica e abrangente. Um motivo por que a teoria da história de Marx se sustenta é o fato de que os bens materiais jamais são apenas bens materiais, mas encerram a promessa do bem-estar humano. São o portal para muita coisa preciosa na vida humana. Por isso homens e mulheres lutam até a morte por terra, propriedade, dinheiro e capital. Ninguém valoriza o fator econômico puramente como fator econômico, afora aqueles que fazem disso uma profissão. É porque essa seara da existência humana abarca em si tantas outras dimensões que ela desempenha um papel-chave na história humana.

Jean- Jacques Rousseau afirma em seu Discurso sobre a desigualdade que a propriedade traz em seu rastro a guerra, a exploração e o conflito de classes. Insistia, ainda, que o chamado
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Jean- Jacques Rousseau afirma em seu Discurso sobre a desigualdade que a propriedade traz em seu rastro a guerra, a exploração e o conflito de classes. Insistia, ainda, que o chamado contrato social é uma fraude perpetrada pelos ricos contra os pobres a fim de proteger seus privilégios.

Uma forma virulenta de utopia atingiu a Idade Moderna, mas seu nome não é marxismo. Trata-se da noção enlouquecida de que um único sistema global conhecido como livre mercado seja capaz de se impor sobre as culturas e economias mais diversas
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Uma forma virulenta de utopia atingiu a Idade Moderna, mas seu nome não é marxismo. Trata-se da noção enlouquecida de que um único sistema global conhecido como livre mercado seja capaz de se impor sobre as culturas e economias mais diversas e curar todas as suas mazelas.

A igualdade para o socialismo não significa que todos sejam exatamente o mesmo — a tese mais absurda possível. Até Marx teria percebido ser mais inteligente do que o duque de Wellington.
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A igualdade para o socialismo não significa que todos sejam exatamente o mesmo — a tese mais absurda possível. Até Marx teria percebido ser mais inteligente do que o duque de Wellington. Também não significa que a todos será concedida exatamente a mesma quantidade de riqueza ou de recursos. A igualdade genuína não significa tratar todos do mesmo jeito, mas atender às necessidades diferentes de cada um de forma igual. E esse é o tipo de sociedade pela qual ansiava Marx. As necessidades humanas não são perfeitamente correspondentes. Não é possível medi-las com a mesma régua. Para Marx, todos deveriam ter o mesmo direito à autorrealização, bem como à participação ativa na formatação da vida social. As barreiras da desigualdade, assim, cairiam por terra. O resultado disso, contudo, seria, na medida do possível, permitir que cada um desabrochasse como o indivíduo ímpar que é. No fim das contas, para Marx, a igualdade existe em prol da diferença. O socialismo não tem a ver com todos usando o mesmo tipo de macacão. É o capitalismo consumidor que veste com capricho os cidadãos em uniformes conhecidos como moletons e calças de jogging.

Tomemos, por exemplo, a ideia de uma cooperativa autogovernada, que Marx aparentemente encarava como a unidade produtiva chave do futuro socialista. A contribuição de um indivíduo para uma organização assim permite algum tipo de
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Tomemos, por exemplo, a ideia de uma cooperativa autogovernada, que Marx aparentemente encarava como a unidade produtiva chave do futuro socialista. A contribuição de um indivíduo para uma organização assim permite algum tipo de autorrealização, mas também contribui para o bem-estar dos outros, simplesmente em virtude da maneira como o cenário está montado. Não preciso nutrir ideias ternas quanto a meus colegas de trabalho ou me açoitar a cada duas horas para demonstrar meu frenesi altruísta. Minha autorrealização ajuda a aumentar a deles simplesmente por causa da natureza coletivamente regulada, bem como cooperativa, partilhadora de lucros e igualitária. É uma questão estrutural, não de virtude pessoal. Não exige uma raça de Cordélias.

Existe um sentido em que se pode partir do corpo humano para questões de ética e política. Se são criaturas autorrealizáveis, os seres humanos, então, precisam ter liberdade para satisfazer suas necessidades e expressar seus poderes; mas se também são animais
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Existe um sentido em que se pode partir do corpo humano para questões de ética e política. Se são criaturas autorrealizáveis, os seres humanos, então, precisam ter liberdade para satisfazer suas necessidades e expressar seus poderes; mas se também são animais sociais, vivendo ao lado de outros seres autoexpressivos, precisam impedir um choque interminável e destrutivo desses poderes. Esse é um dos problemas mais espinhosos da sociedade liberal, na qual os indivíduos supostamente são livres, mas livres, entre outras coisas, para viver se engalfinhando. O comunismo, ao contrário, organiza a vida social de tal maneira que torna os indivíduos capazes de se realizar na autorrealização dos outros e por meio dela. Segundo Marx no Manifesto comunista, “o livre desenvolvimento de cada um se torna a condição para o livre desenvolvimento de todos”.

Pensemos no inflamado slogan do movimento estudantil de 1968 em Paris: “Seja realista: exija o impossível!” Apesar da hipérbole, o slogan é bastante preciso. O que é realisticamente necessário para consertar a sociedade está além dos poderes do sistema
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Pensemos no inflamado slogan do movimento estudantil de 1968 em Paris: “Seja realista: exija o impossível!” Apesar da hipérbole, o slogan é bastante preciso. O que é realisticamente necessário para consertar a sociedade está além dos poderes do sistema dominante e, nesse sentido, é impossível. Mas é realista crer que o mundo possa em princípio ser imensamente melhorado.(...) Eles não veem que a desigualdade é tão natural para o capitalismo quanto o são, para Hollywood, o narcisismo e a megalomania.

Eles passam, por assim dizer, da “pré-história” de seu encarceramento para a história propriamente dita, ou seja, têm liberdade para determinar sua existência, em lugar de tê-la determinada por forças
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Eles passam, por assim dizer, da “pré-história” de seu encarceramento para a história propriamente dita, ou seja, têm liberdade para determinar sua existência, em lugar de tê-la determinada por forças externas. Para Marx, o socialismo é o ponto no qual começamos coletivamente a determinar nosso destino. Ele é a democracia assumida com plena seriedade, em vez de uma democracia como (na maioria das vezes) uma farsa política. E o fato de que os indivíduos estejam mais livres significa que será mais difícil dizer o que eles estarão fazendo às cinco da tarde de uma quarta-feira.

Ideais são indicações, não entidades tangíveis. Eles nos mostram o caminho a seguir. Os que zombam dos ideais socialistas deveriam se lembrar de que também o livre mercado jamais pode ser perfeitamente viabilizado, o que nem por isso freia seus adeptos.
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Ideais são indicações, não entidades tangíveis. Eles nos mostram o caminho a seguir. Os que zombam dos ideais socialistas deveriam se lembrar de que também o livre mercado jamais pode ser perfeitamente viabilizado, o que nem por isso freia seus adeptos. O fato de não existir democracia sem defeito não leva a maioria de nós a se conformar com a tirania. Não renunciamos à tentativa de alimentar os famintos do mundo, embora sabendo que alguns deles perecerão antes que o façamos. Alguns dos que afirmam que o socialismo é inviável estão convencidos de que podem erradicar a pobreza, resolver a crise do aquecimento global, estender a democracia liberal até o Afeganistão e solucionar os conflitos mundiais por intermédio das resoluções das Nações Unidas. Todas essas tarefas intimidadoras se encontram confortavelmente no âmbito do possível. Só o socialismo, por alguma razão misteriosa, se acha fora de alcance

Vale a pena destacar a preocupação de Marx com o indivíduo, já que ela nitidamente contraria a caricatura habitual de sua obra. Nessa visão, o marxismo tem tudo a ver com coletivistas anônimos que ignoram a vida pessoal. Nada pode estar mais
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Vale a pena destacar a preocupação de Marx com o indivíduo, já que ela nitidamente contraria a caricatura habitual de sua obra. Nessa visão, o marxismo tem tudo a ver com coletivistas anônimos que ignoram a vida pessoal. Nada pode estar mais distante do pensamento de Marx. É possível dizer que o livre florescimento dos indivíduos é o objetivo primeiro de sua política, desde que nos recordemos de que esses indivíduos precisam descobrir alguma forma de florescer em conjunto. Afirmar a própria individualidade, escreve ele em A sagrada família, é “a manifestação vital da existência”. Pode-se dizer que essa é a moral de Marx do início ao fim.

Saberemos que o socialismo se estabeleceu quando formos capazes de olhar para trás com absoluta incredulidade para a ideia de que um punhado de capangas comerciais recebeu carta branca para corromper a
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Saberemos que o socialismo se estabeleceu quando formos capazes de olhar para trás com absoluta incredulidade para a ideia de que um punhado de capangas comerciais recebeu carta branca para corromper a mente da opinião pública com ideias políticas neandertais convenientes a seus próprios extratos bancários e a pouco mais do que isso