ASSIM NASCEM OS ANJOS Em algum lugar, um novo país nasce — com muitas cores e várias raças. Em assembleia, os líderes desse nascente país, incomodados com a diversidade do povo, se reúnem e decidem que determinados grupos da sociedade são inferiores devido à sua cor, religião o…
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ASSIM NASCEM OS ANJOS Em algum lugar, um novo país nasce — com muitas cores e várias raças. Em assembleia, os líderes desse nascente país, incomodados com a diversidade do povo, se reúnem e decidem que determinados grupos da sociedade são inferiores devido à sua cor, religião ou origem humilde. Bombardeado com propagandas pseudocientíficas encomendadas, piadas racistas em programas de televisão e reuniões de família, além de mitos e deuses religiosos criados com os traços e os valores desses líderes, parte do jovem povo começa a interpretar que aquilo é realmente verdadeiro. Que aqueles grupos são, sim, intelectual, racial e moralmente inferiores e, portanto, não são merecedores de respeito e empatia. Os grupos estigmatizados começam, então, a ter dificuldades para encontrar emprego e, quando encontram, geralmente recebem salários muito mais baixos que os demais — sempre em profissões de pouco ou nenhum reconhecimento dentro da sociedade. Como consequência, tem o acesso aos serviços básicos prejudicado. Empurrados para as periferias, sem casa própria, sem acesso à água, esgoto, saúde, segurança, justiça, cultura ou educação transformadora, não conseguem aparecer. Não de forma positiva. Toda a estrutura à sua volta tem o único objetivo de inviabilizar seu desenvolvimento. Comem mal. Dormem mal. Sonham mal. Relacionam-se mal. Morrem mal. E como morrem! Subir um degrau qualquer na escada social não é explicitamente proibido, mas é praticamente impossível. Os grupos são capazes, mas foram desacreditados de tal modo que às vezes chegam eles próprios a desacreditar. Mesmo assim lutaram. Lutaram muito. Sem muito sucesso. E os líderes tornaram-se a elite do jovem país. Gente apta, meritocrática, com uma superioridade moral e ética de causar inveja a qualquer humanista.E confirmam, orgulhosos, a decisão tomada inicialmente e que serviu de base para a nova nação: — Tá vendo como tínhamos razão!