ENCANTOS E DESENCANTOS
De minha janela,
Crianças vejo brincando
Tagarelas e festivas!
Adultos vão passando:
Uns se cumprimentam,
Outros, no entanto,
ignoram-se, apenas.
E a vida prossegue
Tecendo seu espetáculo
de encantos e desencantos.
MAL DE AMOR
O que tende a ser
O mal de amor? -
Senão agros sintomas
Que se agregam aos sentimentos
Ou danos oriundos
De afetos corroídos;
Senão a inquietude
Que no peito se aloja
Ou a degeneração
De promessas formuladas;
Senão a eternidade
Em cada instante de espera
Ou rastros de lágrimas
Na face de alguém
Que nutriu uma quimera!...
QUADRAS DA PRIMAVERA
Vibram sonhos e canções
Nas rimas do trovador
E pulsam as sensações
Da reinvenção do amor!
Brota n'alma a esperança -
E nas manhãs, a alegria.
É primavera, é bonança
Irrigando a poesia!
E tudo sorri e canta
Na cidade ou no sertão.
Belo cenário que espanta
Os males do coração!
Lindas flores, brisa doce...
Ó gente, como eu quisera,
Que na vida sempre fosse
Só tempo de primavera!...
RESTOS DE TARDE
Cerram-se,
lentamente,
as cortinas
do dia;
do sol -
o fogo
já
não
arde!
Enquanto
lavro
um
poema,
a angústia
se distrai
mascando
os restos
da tarde!...
Natureza e poesia
Por caminhos bem diversos
Cantando, tecendo versos
Me abasteço de harmonia.
Posso não ser bom poeta,
Mas minh'arte predileta
É semear poesia.
Canto o passado, o presente
E sigo sempre contente
Elaborando o porvir.
Canto a aura cristalina,
A beleza feminina,
Tudo o que me faz seguir.
Amo o timbre tão suave
Do gorjeio de uma ave;
Do sol canto o resplendor!
Canto toda a natureza
De onde emana a grandeza
Do poeta Criador.
CLÍMAX
São fagulhas e lampejos
De uma sedução tão louca,
Quando me dás os teus beijos,
Quando sugo a tua boca.
Nossos corpos, tão famintos,
Se alimentam de carícias
E desvendam labirintos
De volúpias e malícias.
Artimanha e artifício -
Apetrechos do exercício
Desse amor sem obstáculo.
Nossas carnes, indefesas,
Imergem nas profundezas
Do clímax desse espetáculo!...
SEM RESPOSTA
Não me perguntem
Sobre alegorias...
Cores... festas...
Metáforas de luz!
Não me perguntem
Sobre exultações...
Risos... volúpias...
Frenéticas folias!...
Meu verso não responde,
Meu verso não o sabe.
A fome, a miséria e a violência
Prosperam, cada vez mais,
Desativando o cenário
De quaisquer euforias
DESCRENTE
Há quem, sem sonho e sem paz,
Siga os caprichos da vida
Com alma desiludida
E sem crer em nada mais!
E carregue o seu tormento
Sem pensar em novo dia,
Se esquivando da alegria,
Abraçando o sofrimento!
E, conduzindo adiante
O viver tão infecundo,
Talvez almeje que o mundo
Desabe a qualquer instante!...
PRISIONEIRO
A noite já não me assusta
Com seu vestido de ébano
Nem me assombram as vozes
Que emergem do invisível...
Houve um tempo
(Há muito tempo)
Em que a noite
Era um segredo -
E eu, prisioneiro
Das sensações do medo!...
CENÁRIO DE AMOR
Teus braços - rubro sol a esplandecer -
Quando me envolvem plenamente assim,
Sinto minh'alma toda se aquecer
E a solidão se afugentar de mim.
Instala-se a alegria em meu viver,
É cenário de amor que não tem fim,
É luz tomando conta do meu ser,
É poesia, é festa e brilho, enfim.
Em cada doce beijo que me dás,
Arde uma chama qual uma fogueira
E a ansiedade ferve ainda mais...
O desejo se apossa de nós dois,
Sinto despir-se a tua alma inteira -
E nada mais se deixa p'ra depois!...
R.M. Cardoso