Os amigos riem porque muita gente desaprendeu a respeitar o invisível. Vivemos dias em que o deboche virou escudo intelectual. Só que há coisas que não cabem em laboratório: a intuição da mãe, o arrepio diante do tambor, a paz inesperada depois da oração, a sensação de ter escapado de algo ruim sem entender como.
O povo simples nunca precisou explicar a fé. Apenas viveu.
A vida moderna criou especialistas em maledicência.
Gente que se alimenta da derrota alheia, que torce pelo tropeço do vizinho,
Que transforma boato em entretenimento e ironia em personalidade.
O mal agouro hoje anda solto feito cachorro sem dono.
Tem gente que entra num ambiente e apaga a luz espiritual dele só com a própria presença.
O sujeito pode passar a vida inteira dizendo que é racional demais pra essas coisas, que religião é invenção humana, que tudo se explica pela ciência. Mas basta o elevador balançar, o telefone tocar de madrugada ou o coração apertar numa rua vazia depois da meia-noite… e o homem procura alguma proteção invisível. Nem que seja dentro dele mesmo.
Existe um tipo de gente que o mundo quase nunca percebe direito.
Não faz alarde, não bate no peito dizendo que é bom,
Não transforma gentileza em propaganda.
Apenas segue vivendo — tentando não ferir ninguém enquanto atravessa os próprios temporais.
O Senhor é Meu Pastor e
Nada vai me faltar
No silêncio da manhã eu ouvi o coração
Conversando com o céu em forma de oração
E o Senhor me respondeu com carinho e luz
Segurando minha mão pelos caminhos da cruz
O Senhor é meu pastor
Nada vai me faltar
Quando o mundo pesa em mim
Ele vem me levantar
Ô Johnny Alf...
Teu piano acendeu a alvorada
Antes mesmo da Bossa nascer
Tua harmonia já iluminava
O caminho do novo viver
Ô Johnny Alf...
Gênio simples da noite vadia
Te escondeste da fama e da cor
Mas teu nome ficou na poesia
Como estrela maior do amor
Um piano chorava no bar.
Na penumbra da noite carioca
Um piano chorava no bar
Vestido de sonho e fumaça
Fazia a cidade escutar
Johnny Alf chegava mansinho
Sem alarde, sem querer reinar
Mas o toque que vinha dos dedos
Fez a música se transformar
Foi no Rio de tantos encantos
Que nasceu sua inspiração
No compasso das madrugadas
Reinventando a canção
João ouvia calado num canto
Tom Jobim parava pra ver
E a batida que mudaria o mundo
Começava ali sem ninguém perceber
Você parece desses que, mesmo triste, tenta não despejar suas dores nos ombros errados. Isso é maturidade espiritual. Nem santo consegue sorrir o tempo inteiro, mas existe uma enorme diferença entre sofrer e transformar sofrimento em veneno coletivo.
Os antigos já sabiam: palavra tem axé.
O Rio não permite soberba por muito tempo. A paisagem é divina, mas a vida cobra pedágio. Entre o mar e o morro, entre o cartão-postal e a sirene, o povo aprende cedo que ninguém controla tudo. E talvez seja daí que nasça essa mistura tão brasileira de fé, superstição, respeito e sobrevivência.
Pior é o homem que acha que é dono da Terra.
Pior é aquele que pisa duro demais, como se nunca fosse cair.
Firmar os pés no chão logo cedo talvez seja a oração mais bonita. Porque lembrar que nada nos pertence é uma forma rara de sabedoria. A casa fica. O carro fica. O dinheiro muda de mão. Até o corpo um dia devolvemos ao tempo. O que segue adiante é aquilo que plantamos enquanto passamos por aqui: o cuidado, a palavra, a lealdade, a mão estendida na hora certa.
Filho da luta e da esperança
Doce mestre da sutileza
Transformou silêncio em beleza
E fez do jazz nossa herança
Nas boates de Copacabana
Entre copos, fumaça e luar
O Brasil descobria baixinho
Uma nova maneira de amar
Tem gente que entra na praia como quem entra numa igreja. Pisa devagar. Olha pro horizonte. Faz silêncio por dentro. Pede licença pra rainha do mar. Outros passam pela mata e sentem um arrepio antigo, como se os galhos observassem a humanidade com paciência milenar. Há quem, depois da meia-noite, diminua o tom de voz em certas esquinas, não por medo apenas, mas por respeito ao povo da rua, aos invisíveis, aos que caminham entre a fé e o mistério.
Mas quem vive de verdade sabe:
felicidade mesmo é quando o peito descansa.
É poder ouvir um rádio baixo ao longe,
sentir o vento entrando pela janela
e perceber que, apesar das batalhas,
a alma ainda samba.
Porque a vida castiga, sim.
Mas também abraça.