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Frases de Paulo Ricardo Zargolin

655 frases

⁠Há um instante em que a consciência se afasta do eu cotidiano como um satélite silencioso. Pode-se ver a si mesmo do lado de fora. E o que se vê não é um corpo —é uma trama de memórias, desejos, perdas e vírgulas mal colocadas.
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⁠Há um instante em que a consciência se afasta do eu cotidiano como um satélite silencioso. Pode-se ver a si mesmo do lado de fora. E o que se vê não é um corpo —é uma trama de memórias, desejos, perdas e vírgulas mal colocadas. Não é estar em órbita, mas em colapso lúcido. É olhar para o que foi, para o que escreve, para o que sentiu e tudo parece belo, frágil e profundamente irrelevante — mas ainda assim, digno de ser registrado. É feito um efeito. Talvez, overview. E é interno.

⁠Há uma curva secreta entre o toque e o abismo. Um gesto que, se não for dito, queima mais do que grita. Eu conheço essa curva porque já a desenhei com palavras.
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⁠Há uma curva secreta entre o toque e o abismo. Um gesto que, se não for dito, queima mais do que grita. Eu conheço essa curva porque já a desenhei com palavras. Não para ser lido, mas para que a linguagem sentisse vergonha de não ser carne. Quem me lê não me entende. Quem me sente, suspeita. E quem suspeita está perto demais da vertigem que me habita.

ENQUANTO HOUVER FRIO A verdade é que faz tempo que estamos com frio — mas ninguém mais lembra se o clima está se impondo com rigor
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ENQUANTO HOUVER FRIO A verdade é que faz tempo que estamos com frio — mas ninguém mais lembra se o clima está se impondo com rigor ou se fomos nós que paramos de nos aquecer. Talvez o mundo esteja se apagando, com clarões incoerentes nos recônditos das guerras.⁠

⁠⁠CONGRESSO EM ÓRBITA (por um poeta em Marte) No púlpito, a voz acadêmica
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⁠⁠CONGRESSO EM ÓRBITA (por um poeta em Marte) No púlpito, a voz acadêmica Simula um fervor de retórica, Mas tudo que exala é política Com gosto de névoa catártica. Promete um país de harmonia, Com leis de fachada plástica, Mas trai, na proposta utópica, A ética em curva pragmática. Do claustro marciano observo Os jogos em tela lunática — Debates que brilham sem verbo, Em marcha de lógica tática. A esperança, agora sintoma, Veste um glamour de crendice. A Terra adormece em diploma Assinado por sua mesmice. E eu — sem consolo ou doutrina — Risco um rastro que vacila, Um canto sem lei nem figura, Brindando ao vazio com tequila.

⁠O mundo não quer me ler, porque eu sou a dor de veia rompida perto do calcanhar. Uma dor fina, que incomoda bastante quando a caminhada é longa, mas dá uma certa aflição gostosa ao se espreguiçar na cama, antes de dormir. Então, é melhor conviver do que investigar, já que pode s…
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⁠O mundo não quer me ler, porque eu sou a dor de veia rompida perto do calcanhar. Uma dor fina, que incomoda bastante quando a caminhada é longa, mas dá uma certa aflição gostosa ao se espreguiçar na cama, antes de dormir. Então, é melhor conviver do que investigar, já que pode ser uma hemorragia interna, mas também pode ser só efeito do tempo sobre pés cansados.