Diversas vezes acordava pela manhã com o canto de uma senhora. Canto como um pranto um socorro suplicado. Ela cantava e cantava.
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Diversas vezes acordava pela manhã com o canto de uma senhora. Canto como um pranto um socorro suplicado. Ela cantava e cantava. Cantava com tanta força e desencanto pela vida. Vida essa talvez que lhe faltava ou que lhe foi arrancada pelos anos. Não sabia dizer se era a felicidade que a invadia ou a nostalgia ou até mesmo o canto de alguém que sonha. Conforme ela cantava eu pensava na vida e me invadia um medo de algum dia meu canto transbordar súplica como o dela. Não que não fosse admirável escuta-la gritar pela vida eu a admirava por ainda que parecesse um canto triste, ela cantava sem medo e libertava-se, por um momento, de algo que as palavras cotidianas não conseguiam expressar. E todas as vezes que eu a escutava pela manhã levantava da cama com uma força e vontade de viver meu dia com tanta intensidade de modo a aproveitar cada ímpar momento. Eu quero a vida e quero explorar cada único e particular espaço dessa palavra, vida, ainda que ávida ou feroz, doce ou amarga. Que eu possa dizer, no final mortal, que valeu a pena cada insensato e adverso momento e ao menos da vida tudo eu tive.