Deixar de ser
Hoje foi mais um dia daqueles
Daqueles que você nunca sabe
Aqueles dias que você nem sabe
Que realmente dia é.
Hoje eu não consegui ver o sol
Hoje talvez o sol nem tenha aparecido
Hoje quem sabe nem tenha sido dia
Quem sabe talvez eu nem tenha sido eu.
Será possível não ser eu?
Será realmente possível não se ser?
Será possível desnascer? (existe?)
Será que dá pra desviver?
Hoje o sol não me visitou como faz de costume
Hoje não houve fresta, não houve claridão pela manhã
Não houve sequer uma olhada de canto
Não se ouviu nenhum canto.
Afinal, o que houve hoje?
Ontem, o que haverá amanhã?
Porquê não se sabe, não se dá pra saber?
Como vou saber o hoje, o ontem e o amanhã?
Se eu mesmo não sei de mim?
Se eu saio de mim?
Se não gosto de fins
Se eu nunca estou afim?
O que será de mim?
Momento
O momento é duvidoso
Não sei se feliz ou triste
Não sei o que esperar
Ou se devo aguardar.
Por um lado tudo parece bem
Doutro, uma incerteza
Uma falta de precisão
De saber se é sim ou não.
Não sei se estou feliz
Ou se não sinto nada
Parece meio vago
O que penso, o que falo.
Descontentamento
Meio contente
Infelizmente
Ou se é felizmente.
Nada sei de nada
Sei só que não sei
Se souber não saberei
Sabereis eu saber?
Dito tudo isto
Insisto em duvidar
De tudo que duvido
Ou que me deixa em dúvida.
Há razão em ter razão?
Há certeza no incerto?
Sentir que não sente
Já não é uma sensação?
Outrora não há afirmação
Dono não há de convicção
O certo já foi incerto
Até se tornar concreto.
Tudo isso nada quer dizer
Ou diz e eu não sei o quê?
Cada um deve algo saber
Ou tenta querer perceber.
Des(gosto)
Gosto de chorar andando na chuva
Ninguém percebe minhas lágrimas
Misturadas com a água
E escondem minha mágoa.
Gosto de olhar o cotidiano
O ir e vir das pessoas
Os carros nas ruas
A troca do sol pela lua.
Gosto do cheiro de chuva
Que cai de tardezinha
Lavando a alma
E mantém a calma.
Gosto de sentir angústia
Daquela tristeza avulsa
Do gosto amargo da loucura
De desconhecer totalmente a doçura.
Gosto do despreparo
Dos sentimentos de desamparo
Gosto de sentir o gosto
De tudo que me dá desgosto.
Se durante a vida
Se durante a vida
Encontraste o amor
Saiba que viveu
A vida com clamor.
Se bebeu da fonte
A água da amizade
Encontrou o caminho
Que irá a qualquer parte.
Contemplou a paternidade
Deixarás muito mais
Que lembranças
Deixará continuidade.
Vive com intensidade
O que a vida te proporciona
Acata cada dia
E te direciona.
A vida é um breve sopro
Não te prendas em desgostos
Se desprenda dos outros
E viva ao teu gosto.
Sufoco
Tudo dói mais que o normal
Sinto tudo com mais intensidade
Sinto até as lágrimas escorrendo
Por vezes quero sair correndo.
Sinto o vazio ao meu redor
Sinto o silêncio, a falta de luz
Ouço meu sangue circular
Tenho gostado tanto de chorar.
A agonia maçante de pensar
Provoca um aperto no peito
Uma tristeza sem explicação
Me deixa sem sentido e sem razão.
O pior é a solidão
Ela me abraça, sufoca
Me bate e me derruba
Parece não acabar nunca.
Sem saber
Sem querer
Vou querendo apenas
Viver.
A tristeza tem sabor
Um gosto de desgosto
Um tempero insosso
De querer se sentir morto.
Partida
Não tive chance
Não houve oportunidade
Amigo, eu sinto tanto
A falta do nosso canto.
Diz pra mim que é passageiro
Que ausência e tristeza
É uma viagem breve
Deixa as memórias, não as leve...
Teu riso causa o meu
Sem motivo, quero tanto
Me perder nos abraços
Que você me deu.
Aonde eu vá
Você costuma estar
Mesmo que eu volte
A vontade é de ficar.
Habita meus sonhos
Invade meu viver
Tudo que eu quero
É melhor com você.
Poça d'água
Hoje eu admirava uma poça d'água
O que há demais em uma poça?
O que há demais na água?
Nada, apenas uma poça d'água.
Era sim uma poça d'água, simples
Mas que me mostrava algo maravilhoso
Algo que realmente nunca antes havia percebido
Algo que eu nunca havia compreendido.
Por ela eu via o céu e suas imponentes nuvens
Via pessoas que eu nunca tinha visto, e que moravam na minha rua
Eu sentia junto com ela, o vento e seu sereno
Por ela eu via o que meus olhos não podiam antes ver
O que há demais em uma poça d'água?
Uma menenice que retorna
Uma fase esplendorosa
Algo que que cheira como rosa
Algo que te faz sorrir ao lembrar
De chuvas de verão, abraços afagos
Saudade de alguém, amor sem talvez
É o que há demais em uma poça d'água
"Basta ter um tempo para olhar para dentro de si mesmo"
O que há demais em uma poça d'água?
Uma menenice que retorna
Uma fase esplendorosa
Algo que que cheira como rosa
Algo que te faz sorrir ao lembrar
De chuvas de verão, abraços afagos
Saudade de alguém, amor sem talvez
É o que há demais em uma poça d'água?
Mergulha em mim
Sem medo de afogar
Nada, como em alto mar
Descansa em meus braços
Como o balanço das ondas
Se não avistar um cais
Não sabe pra onde vais
Faz de mim tua ilha
Esquece tudo, idas e vindas.
Me sinto só ao teu lado
Longe de ti, bastardo
Vago ao passado
Com o coração pesado.
Me envergonho
Da sua vergonha
De dizer que o que sinto
Não deves ser revelado.
O homem procura na bebida
O que não sente na vida
Anestesia, fuga da rotina
Um breve momento de alegria.
Toma erradas decisões
Pra iludir a mente
Passa um tempo solitário
No meio de um monte de gente.
Milésimo
Felicidade é baseada em fatos
Às vezes incertos
Não imaginados
Por vezes concretos.
Felicidade é um lapso
Momentos, acontecimentos
Acasos, vem do nada
Como pensamentos.
Felicidade é um tiro
Rápido, inesperado
De qualquer lado
Ou o contrário.
Felicidade não tem forma
Não se define por cor
Não tem aroma
Muito menos sabor.
Felicidade se enquadra
No momento proporcionado
Uma breve fuga da rotina
Se manifesta na surdina.
Felicidade
Chega e se vai
Embriaga
E nada mais.
Flerte
A bebida flertou comigo
Estamos tendo um caso
Ela me faz esquecer
Sentimentos do passado.
Cada gole, como um beijo
Quanto mais ela me embriaga
Mais eu sinto desejo
Só eu e ela, mais nada.
A única conversa
São meus pensamentos
Os quais eu guardo intimamente
Tristes sentimentos.
A bebida, assim como uma dama
Embaralha meus sentidos
Aguça meus desejos
Aflora meus instintos.
Já que a bebida mata
Eis aqui um oportunista
Que se entrega aos copos
E termina onanista.
Respostas
Procurei resposta e afagos
Em copos de bebidas
Mesmo com gostos amargos
Breves momentos de anestesia.
Toda sobriedade perdida
A fuga da rotina e da vida
Parecia tudo resolvido
Até a ressaca noutro dia.
Não há resposta concreta
Buscada na ilusão
Quando se tem dúvidas
A resposta é sim ou não.